Dívidas e juros altos consomem a renda dos brasileiros

Custo mensal com alimentação, aluguel e juros do cartão levam todo o salário dos trabalhadores. Foto: Donavan Sampaio/JAV DF

“Por que nada é feito contra quem cobra juros abusivos e enriquece à custa da pobreza de milhões de pessoas? A resposta é simples: quem toma conta do galinheiro é a raposa. O Banco Central, responsável por ordenar o sistema financeiro e garantir uma política monetária sustentável para a população, é quase uma filial da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban).”

Serley Leal | Fortaleza (CE)


Na sociedade capitalista, o dinheiro que circula no mercadinho da esquina, nos bares, restaurantes, feiras, etc., mesmo sendo moeda metálica, cédula, pix ou transferência bancária, está sob controle dos bancos. Além de controlar a circulação de todo esse dinheiro, os donos desses bancos e outros grandes capitalistas também mandam nos governos.

De fato, quem determina o preço do arroz, do feijão, da carne, dos calçados e das roupas, ou seja, de tudo que é vendido ou comprado, são os capitalistas donos das indústrias, redes de supermercados, fazendas, lojas, etc. O lucro dessa classe de bilionários não cai do céu, mas é resultado da exploração de milhões de trabalhadores que, mesmo sendo os verdadeiros responsáveis pela produção de todas as riquezas, recebem em troca um salário de fome.

Mas, como diz o ditado popular, “é preciso esfolar o boi duas vezes”. É isso que os banqueiros fazem no Brasil. Os bancos têm o chamado monopólio do dinheiro. Tanto é que existe até um crime para quem empresta dinheiro a juros fora do esquema oficial: agiotagem. Com o aval do governo, eles convocam o povo para poupar, abrindo contas que dão um rendimento miserável e, com esse mesmo dinheiro, vendem empréstimos com taxas de juros estratosféricas.

Pior: quem determina qual é o preço que os bancos podem emprestar são os próprios bancos! Resultado: de 2004 a 2024, as maiores instituições financeiras que atuam no Brasil conseguiram lucrar mais de R$ 1,3 trilhão, uma verdadeira fortuna.

Paraíso dos banqueiros

Mas por que os juros são tão altos no Brasil? Os economistas burgueses dizem que o governo precisa controlar a inflação e, para isso, as taxas de juros têm que ser altas. É isso que dizem todos os dias na TV.

Mas todo mundo sabe que se aumentasse a oferta de produtos na economia, os preços baixariam. Ou seja, a melhor forma de controlar a inflação é produzindo mais mercadorias. Mas, como no Brasil as terras, fábricas e lojas são propriedades privadas dos grandes capitalistas, da burguesia, sempre que existe uma boa safra ou aumento na produção de mercadorias essenciais para o povo, esses capitalistas destinam o excedente para exportação ou estocam, pois se vendessem no mercado nacional os preços baixariam imediatamente.

Assim, o problema da inflação não está necessariamente na alteração da taxa de juros, a chamada Selic1, mas em como a economia é organizada. Até em economias capitalistas desenvolvidas, o próprio governo limita a venda de produtos para o exterior, garantindo melhor controle de preços.

No Brasil, ao contrário, os governos se submetem à vontade da burguesia e permitem que o povo sofra enquanto os ricos ficam a cada dia mais ricos. Como vivemos no passado sérios problemas de hiperinflação, a justificativa de que é preciso aumentar os juros para conter o aumento dos preços é sempre utilizada. Mas existem outros fatores que explicam essa elevação constante: um deles é o fato de nosso país ser dependente de capital externo para desenvolver a produção interna e, portanto, obrigado a enviar enormes lucros e dividendos para o exterior, sugando todas as receitas e impedindo a formação de uma poupança nacional. Com isso, toda a economia fica à mercê dos banqueiros, e os capitalistas utilizam enormes créditos subsidiados para manterem seus investimentos e ampliarem seus capitais.

Exemplo disso é o Plano Safra, destinado a financiar a agricultura no Brasil com recursos principalmente do Banco do Brasil e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social). Entre 2024 e 2025, o governo vai injetar na agricultura cerca de R$ 475 bilhões em créditos. Desse total, R$ 400 bilhões vão para o agronegócio, ou seja, a maioria do dinheiro vai para uma minoria de empresários a juros entre 7% a 12% ao ano, bem abaixo da taxa média definida para economia, um enorme benefício dado pelo governo.

Quando o assunto é oferecer crédito para os trabalhadores ou pequenos empresários, os juros chegam nas alturas. Um aposentado do INSS, por exemplo, paga em média 23,8% de juros nos empréstimos consignados. Se for um juro de empréstimo pessoal, a taxa média sobe para 94,8% ao ano. Tem empresas que cobram até 15% ao mês! No caso dos cartões de crédito, os juros podem chegar a quase 400% ao ano.

O resultado de toda essa especulação e ganância é o super-endividamento dos mais pobres. No ano passado, cerca de 28,3% das famílias brasileiras não conseguiram pagar suas dívidas, segundo a Confederação de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Dona Maria do Amparo de Souza, aposentada pelo INSS e moradora do bairro Autran Nunes, em Fortaleza, é uma delas. “Meu benefício não dá mais pra nada. Só recebo R$ 832,00. Todo mês, dependo de renovar esses empréstimos no banco se não morro de fome. Mesmo com o aumento que teve, não dá pra nada. É muito complicado viver assim”, desabafa.

Por outro lado, quem não tem do que reclamar da atual política econômica são justamente os banqueiros. O cálculo é simples: considerando o risco médio de atrasos, os prazos de pagamento e as taxas cobradas, praticamente 1/4 da renda dos trabalhadores fica nas mãos dos bancos, ou seja, três meses de trabalho. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a renda total dos trabalhadores somou R$ 328,4 bilhões em 2024, enquanto os lucros dos maiores bancos comerciais, segundo projeções do jornal O Valor, fechou em R$ 112,4 bilhões. Quer dizer, no Brasil, o povo trabalha para enriquecer a burguesia.

Banco Central

São muitas as injustiças que existem em nosso país, e a lei burguesa existe para proteger sempre os mais ricos.

De fato, quando um pai ou uma mãe desesperados furtam uma lata de leite para dar para seus filhos que estão passando fome em casa, a coisa vira caso de polícia. Mas por que nada é feito contra quem cobra juros abusivos e enriquece à custa da pobreza de milhões de pessoas? A resposta é simples: quem toma conta do galinheiro é a raposa.

O Banco Central, responsável por ordenar o sistema financeiro e garantir uma política monetária sustentável para a população, é quase uma filial da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). A mídia burguesa só lembra do Banco Central a cada 45 dias, quando seu Conselho de Política Monetária define a nova taxa Selic, que serve de base para a remuneração dos donos dos títulos da dívida pública. Atualmente, essa dívida equivale a quase 80% do PIB, chegando a R$ 7,7 trilhões. Cada aumento de 1% da Selic representa R$ 55,2 bilhões a menos nos cofres públicos. Isso significa menos dinheiro para a educação, saúde, saneamento, segurança pública, meio ambiente, etc.

No Governo Bolsonaro, com apoio do Congresso Nacional, o Banco Central mudou de status jurídico e virou uma autarquia independente. O mínimo de controle que existia, não ocorre mais. Em sua reunião do dia 29 de janeiro, o BC decidiu aumentar a taxa básica para 13,25%, a maior do mundo quando se desconta a inflação. Logo, não é um banco do Estado brasileiro, mas uma instituição dirigida em benefício de meia dúzia de grandes magnatas do sistema financeiro.

Controle sobre os bancos

Somente uma mudança drástica e radical poderia colocar fim a essa farra dos bancos no Brasil. Uma revolução socialista significa que a população, em especial, os trabalhadores, os principais atingidos por essa política desigual, deve ter controle total sobre os bancos e sobre toda a economia.

Se são os trabalhadores que produzem todas as riquezas, nada mais justo que tudo isso seja repartido entre eles. Dessa forma, a fome, o desemprego e a falta de condições dignas de vida seriam resolvidos e o Brasil finalmente seria para os brasileiros.

Nota:

  1. Selic é o Sistema Especial de Liquidação e Custódia do Banco Central do Brasil, taxa básica que remunera os títulos públicos federais negociados no mercado financeiro.

Matéria publicada na edição impressa nº 307 do jornal A Verdade

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