Eis que a língua dá nos dentes – 27/02/2025 – Suzana Herculano-Houzel


A língua é subestimada. Esse músculo, longo, forte e com uma extremidade livre, ao contrário de todos os demais do corpo, se move o tempo todo sem que a gente perceba —e com grande precisão. Falar só é possível porque a língua levanta, abaixa, rola e vibra o tanto certo e na hora certa. Todo dia, viver mais um depende de a língua sempre fazer a coisa certa: um errinho e a gente engasga, se a comida, a água ou mesmo a saliva dentro da boca for encaminhada para a garganta na hora errada.

Tanto controle, e sem que a gente se dê conta ou precise pensar no assunto, acontece sem que seja preciso o córtex cerebral se incomodar. O colículo superior dá conta do recado de mexer a língua sozinho, segundo um estudo feito na Universidade Cornell, nos EUA, e recém-publicado na revista Nature.

A estrutura, cujo nome bonitinho indica a aparência de morrote na parte de cima da superfície do tronco cerebral, foi por algum tempo queridinha dos neurocientistas por sua facilidade de acesso e função. Muito antes de o córtex cerebral receber notícias dos sentidos e comandar alguma ação, o colículo superior intercepta cópias das mensagens e já toma medidas.

Todo tipo de movimento que reposiciona a cabeça, os olhos ou as orelhas —para aquelas espécies que podem movê-las— em resposta a algum evento no mundo é organizado pelo colículo superior de maneira direta e imediata. Se algum som súbito vem dali, é para ali que os olhos, a cabeça e as orelhas rapidamente se voltam, o que rende ao cérebro informação rica e detalhada sobre tudo o que acontecer a seguir. O colículo superior, com seus mapas do corpo e controle dos músculos que o movem, age primeiro, e o córtex é informado depois.

A língua, como eu disse e a gente esquece, é um desses músculos, e também ela se move rapidamente em direção de novos acontecimentos. Quem tem cachorro ou bebê em casa sabe: tudo quanto é novidade é imediatamente lambida. Faz sentido, porque afinal a língua não só é um músculo como ainda é coberta de sensores. Gente grande faz a mesma coisa, apenas mais discretamente, cutucando com a língua aquele restinho grudado nos dentes —isso quando não está explorando a língua ou pele alheia.

Mover a língua diretamente de encontro ao que ela explora é fundamental para tudo o que ela faz, assim como mover os olhos ou a cabeça toda.

O novo estudo, feito com camundongos, mostra que o colículo superior dos bichinhos é necessário e suficiente para que a língua seja reposicionada quando o canudo do bebedor que eles lambem se move inesperadamente para um lado. Enquanto é o centro da língua que toca o canudo, as lambidas seguintes ocorrem exatamente no mesmo lugar, à impressionante taxa de oito por segundo; mas se o canudo “escapa” (por safadeza dos cientistas) e toca a lateral da língua, o colículo superior recalibra a próxima lambida naquela direção em menos de um décimo de segundo. E pronto: o comportamento volta a acontecer no centro da língua e no centro do corpo.

Ao longo dos anos, o córtex cerebral, necessário à percepção consciente, roubou a atenção que o colículo cerebral recebia dos neurocientistas. Mas é graças ao colículo que a gente faz muita coisa sem precisar ter ciência do que está fazendo —mesmo que ele acabe dando com a língua nos dentes, de um jeito ou de outro.


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