Dengue: campanha falhou ao não vacinar nas escolas – 28/02/2025 – Equilíbrio e Saúde


As taxas de cobertura da vacina contra a dengue estão baixas nas 11 unidades federativas que divulgaram os números da vacinação. A meta do Ministério da Saúde é imunizar 90% do público-alvo —crianças e adolescentes de 10 a 14 anos— com as duas doses, oferecidas em quase 2.000 municípios prioritários.

Os estados, contudo, estão longe da meta. Rio de Janeiro, por exemplo, alcançou 25,5% de cobertura para a primeira dose, e 16,8% para a segunda. Em São Paulo, esses percentuais são de 27,4% e 11,1%, respectivamente.

A dificuldade em enfrentar crises sanitárias como a da dengue, bem como a falta de um programa forte que seja marca de sua gestão, são apontados como alguns dos motivos que levaram à demissão da ministra da Saúde, Nísia Trindade, na última terça (25). Ela será substituída pelo médico e deputado federal Alexandre Padilha (PT), que deve assumir o cargo no próximo dia 10.

Segundo especialistas ouvidos pela Folha, o fato de a vacinação não ter sido oferecida nas escolas ajuda a explicar os baixos índices de cobertura. Também faltou uma campanha de informação eficiente.

Devido a episódios de reação alérgica ao imunizante, o ministério recomendou que a vacinação seja feita em unidades de saúde. Após receber a vacina, a criança ou adolescente deve permanecer no local, em observação, por um período de 15 a 30 minutos.

A fim de ampliar a cobertura vacinal contra a dengue na cidade, a Prefeitura de Guarujá (SP) realizou uma ação de vacinação em duas escolas municipais na última quarta (26).

De acordo com o município, 160 alunos de 10 a 14 anos receberam o imunizante e voltaram à sala de aula 15 minutos depois. Ainda segundo a prefeitura, havia médico em tempo integral nas escolas, que ficam a poucos metros da UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro Morrinhos.

Na avaliação de Alberto Chebabo, presidente da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), a estratégia do ministério deveria ser revista.

“Por mais que se faça campanha, essa dificuldade vai existir. Uma das coisas que temos falado é liberar a vacinação em escolas com uma estrutura um pouco mais robusta, como ter uma ambulância à disposição ou alguma unidade [de saúde] próxima dessas escolas”, diz o infectologista.

Para Mônica Levi, presidente da Sbim (Sociedade Brasileira de Imunizações), faltam campanhas informativas sobre a vacinação contra a dengue a nível municipal, estadual e federal.

“É um contrassenso. No setor privado, a população inteira desesperada para se vacinar e não tem vacina. E no público vencendo lotes. Muita gente que vai ao setor privado não sabe que a vacina está disponível nos postos. A informação de que não tem vacina, que corre de boca a boca, não é completa. Não tem nas farmácias, nos laboratórios, nas clínicas de vacinação ou nos hospitais, mas tem nos postos”, afirma.

Levi também avalia que faltou campanhas nas escolas que pudessem estimular os jovens a se vacinarem.

“Adolescente não acorda com vontade de ir ao posto ver se tem vacina. E até onde eu sei não há uma estratégia certeira para levar o adolescente às salas de vacina. O jovem não tem medo de pegar dengue, a não ser que ocorra um caso perto dele que assuste. Não estamos falando com o adolescente da maneira correta”, acrescenta.

A vacina contra a dengue Qdenga, da farmacêutica Takeda, é administrada em duas doses, com 90 dias de intervalo entre elas. Nos percentuais de cobertura divulgados por algumas federações, observa-se que a cobertura da segunda dose é bem inferior em relação à da primeira dose.

O atraso na vacina deixa a pessoa desprotegida. Quanto a isso, Mônica Levi avalia que deveria haver uma campanha específica para a segunda dose. “Se você não fala, as pessoas esquecem. Em qualquer vacina de múltiplas doses a cobertura é melhor na primeira. Precisa explicar por que a segunda dose é importante.”

A epidemiologista Carla Domingues coordenou o PNI (Programa Nacional de Imunizações) do Ministério da Saúde de 2011 a 2019. Para ela, não há entendimento sobre os riscos da doença.

“O adolescente se considera um super-herói, acha que nada vai acontecer com ele. Teria que ter uma grande campanha publicitária, de mobilização, explicando que essa é, sim, uma população que está sob risco de adoecimento e, portanto, precisa ser vacinada”, diz a especialista.

“Quando o Ministério da Saúde decide que não vai vacinar na escola por um suposto risco de eventos adversos, há diminuição da chance de vacinação. O ideal seria vacinar na escola com todo o critério para evitar o choque anafilático, que, apesar de raríssimo, pode acontecer. Evito isso com uma equipe multiprofissional que esteja capaz de identificar esse risco”, afirma.

“As coberturas vacinais na adolescência são baixas. Países que com elevadas coberturas vacinais na adolescência fazem vacinação na escola”, acrescenta.

A discussão sobre os problemas da cobertura vacinal também envolve a atuação de grupos antivacina e as fake news. Carla Domingues lembra, contudo, que a história da vacinação no Brasil é de sucesso e contribuiu para a queda da mortalidade infantil.

“A gente sai de uma taxa de mortalidade de 100 para 1.000 crianças, quando não havia vacina, para algo em torno de 10 para 1.000. Na década de 1950, vivíamos quase 55 anos, hoje chegamos a 80. Grande parte disso é [por causa] da vacinação. Se eu não explico à população, ela começa a acreditar nessas fake news, acha que a vacina não é necessária, acha que é um acordo da indústria com o governo para ganhar dinheiro”, afirma.

Eder Gatti, diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, defende as ações da pasta e afirma que a responsabilidade pela vacinação é tripartite.

“Como a estratégia está muito atrelada à particularidade do território, a responsabilidade do estado e dos municípios fica ainda maior nesse processo de comunicação e elaboração estratégica”, diz Gatti.

Devido à orientação de não vacinar crianças e adolescentes fora das unidades de saúde, o ministério recomenda às escolas checar as cadernetas dos alunos e encaminhar rapidamente aos postos aqueles que não tiverem tomado a vacina contra a dengue ou estiverem com o esquema incompleto.

Segundo Gatti, a baixa capacidade de produção da Qdenga pela Takeda é um obstáculo importante.

“Estamos trabalhando com o que foi imposto pelas características do produto e pela capacidade do laboratório produtor. O ideal seria nós termos um quantitativo maior de vacinas para ampliar e cobrir o maior número de pessoas.”

Em nota, o Ministério da Saúde afirma que, até o dia 19 de fevereiro, foram distribuídas 6,5 milhões de doses da vacina contra a dengue. Destas, 3,3 milhões foram aplicadas, sendo 2,3 milhões referentes à primeira dose. A pasta não informou os percentuais de cobertura a nível nacional.



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