Jovem Guarda: esqueceram os 80 anos de Wanderley Cardoso – 04/04/2025 – Gustavo Alonso


Enquanto muitos artistas icônicos da música brasileira celebram seus 80 anos, como Caetano, Gil, Paulinho da Viola e Milton, que receberam ampla cobertura da imprensa, a história de Wanderley Cardoso, um verdadeiro ídolo da Jovem Guarda, parece ter sido esquecida. Ele completou 80 anos em 10 de março, mas seu aniversário passou despercebido na grande imprensa. É uma pena, pois Wanderley foi um dos grandes nomes do rock brasileiro nos anos 1960.

Sua trajetória é uma das mais icônicas de sua época, semelhante à de outros ícones, como Jerry Adriani. Ambos começaram suas carreiras cantando canções italianas. Em 1966, seu compacto com a versão de “Il Mondo” fez sucesso nas rádios. Mas foi a influência das baladas de Paul Anka, Neil Sedaka e Beatles, que realmente impulsionou sua carreira. O maior sucesso de Wanderley, “Bom Rapaz”, permaneceu 19 semanas entre os 15 compactos mais vendidos entre 1966 e 1968, conforme mostrou o pesquisador Marcelo Garson e sua tese de doutorado sobre a Jovem Guarda.

A rivalidade entre Wanderley e Jerry Adriani, alimentada pela imprensa e pelo empresário Genival Melo, foi um aspecto marcante de sua carreira. Genival, que também gerenciou outros grandes artistas da época, entre eles Nelson Ned, Antonio Marcos e Claudio Fontana, ajudou a moldar a imagem de Wanderley na indústria cultural. Com o apoio das gravadoras e das rádios, ele lançou uma série de sucessos, incluindo “Preste Atenção”, “Caminhada”, “Baby Eu Te Amo”, “Fale Baixinho”, “Vem Ficar Comigo”, “Minha Namorada”, “Te Esperarei”, “Tarde Demais”, “O Pic-Nic”, “Minhas Lágrimas”, “Amor e Ternura”, “Doce de Coco” e, claro, “Bom Rapaz”.

Wanderley era tão influente que até Roberto Carlos se dobrou a ele. Segundo o biógrafo Paulo Cesar de Araújo, um ainda pouco conhecido Roberto Carlos enfrentava dificuldades para atrair convidados para seu programa na TV Record, o Jovem Guarda, que estreou em 1965. Roberto fez um pacto: Wanderley participaria do programa em troca de uma canção composta por Roberto. Assim nasceu a balada “Promessa”, que se tornou um dos grandes sucessos de Wanderley em 1966.

Se hoje a impressão que temos é que Roberto é muito maior que Wanderley, não era assim que parecia nos anos 60. Se Roberto tinha o Jovem Guarda, Wanderley apresentou o programa “A Grande Parada”, uma atração da TV Tupi do Rio de Janeiro que permaneceu no ar até junho de 1968. Reconhecido como um talentoso comediante, fez participações no Moacyr Franco Show, conseguindo, em diversas ocasiões, alcançar altos índices de audiência, mesmo em meio ao sucesso do programa semanal de Roberto.

Wanderley também fez parte do elenco de “Os Adoráveis Trapalhões”, programa exibido pela TV Excelsior entre 1966 e 1968. Idealizado por Renato Aragão, contava também com a participação de Ted Boy Marino e Ivon Cury. Suas músicas apareceram em vários filmes da época, como “007 e Meio no Carnaval” e “Na Onda do Iê-iê-iê”, ambos de 1966, e “Opinião Pública”, um dos primeiros filmes de Arnaldo Jabor, lançado em 1968.

Como aconteceu com muitos artistas da Jovem Guarda, a carreira de Wanderley começou a declinar na transição para os anos 1970, em parte devido à substituição das rádios AM pelas FM. Aquela geração, que havia conquistado os corações apaixonados nos anos 1960, rapidamente se tornou “velha”. Mas a influência da Jovem Guarda é inegável e permanece viva, mesmo que de forma subterrânea na música brasileira. Artistas do brega e da música sertaneja continuam a representar a estética que Wanderley Cardoso defendia em seus áureos tempos.

O Brasil não é um país de memória muito duradoura. O silêncio sobre Wanderley pode ser dimensionado com artistas do presente. É como se daqui há 50 anos venhamos a esquecer quem foi Luan Santana ou Anitta. Pena não termos uma biografia ou documentário sobre Wanderley Cardoso disponível para que possamos dimensionar corretamente sua trajetória. A escrita de sua vida ajudaria a iluminar a história da música verdadeiramente popular brasileira.


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