A volta do Pacaembu, uma migalha da refeição antes servida aos paulistanos – 27/02/2025 – No Corre


Há cerca de três anos frequento as redes sociais do concessionário do estádio do Pacaembu para saber do andamento da reforma da piscina, uma das raras piscinas públicas paulistanas de medida olímpica, ou seja, com raias de 50 metros de comprimento.

Oficialmente a concessionária não reinaugurou o equipamento. Faltam escadas de acesso à piscina e finalização de vestiários —o masculino não mudou muito desde os tempos pré-João Doria, ou seja, pré-concessão. Mas após fiascos e adiamentos sucessivos da reestreia do complexo, a Prefeitura de São Paulo decidiu pesar a mão e obrigou seu prestador a liberar o equipamento.

Ficou tudo meio na surdina. A concessionária divulgou que iria criar um app para normatizar o uso, e de fato o criou, mas a utilização da piscina e das canchas de tênis aparecem ali sob um enigmático “em breve”.

No fim de janeiro, contudo, a tigrada começou a voltar. O horário é generoso. De terça a domingo, enquanto houver luz solar. Não é necessário reservar nem apresentar exame dermatológico –algo que deverá ser mandatório, a julgar pelas informações do app.

Eu revi a piscina nesta quarta (26), logo depois de ter recebido um diagnóstico de melanoma controlável, “in situ” –algo que não vem muito ao caso aqui, mas ajuda a dar certa cor à narrativa e, mais importante, a alertar para os perigos da exposição solar, sem dúvida a variável que modificou o caráter daquela pinta que eu sempre cultivei no centro das costas.

[Acumulo horas de exposição solar nas corridas que faço, algumas delas em horários pouco recomendáveis, embora cidades poluídas como São Paulo já não devam comportar horários diurnos recomendáveis. Filtro solar talvez não seja mais suficiente, a saída quem sabe é acordar com as galinhas.]

Mas de volta ao Pacaembu. É lamentável que uma cidade do tamanho de São Paulo tenha tão escassas opções de piscinas olímpicas públicas. Esses equipamentos são comuns em muitas capitais pelo mundo, e a demanda certamente cresce com o aquecimento global.

A reabertura à fórceps não foi só da piscina, mas também da pista de atletismo do estádio, em torno do gramado, agora sintético. Por volta de 11h, cerca de dez brasileiros faziam uso do equipamento, este sim um ganho para o paulistano, já que antes ele ficava apartado por alambrados.

São Paulo tem ainda a piscina olímpica do complexo do Ibirapuera, de gestão estadual, mas a temperatura da água, às vezes 16 ou 17 graus, torna a experiência ali verdadeiro ato de coragem. Todas as vezes que fui lá em 2024 saí batendo queixo. Eu, sujeito relativamente mão de vaca, cheguei a cogitar comprar uma daquelas roupas emborrachadas.

Não sei se é este o objetivo final —e dissimulado— do gestor público, o de fazer o cidadão acostumar-se com um rebaixamento de seus direitos, mas tendo a acreditar que somos gradativamente convidados a nos acostumar com menos. Com a pandemia, locais de uso público como a praça do Pôr do Sol e o Minhocão foram interditados, e a reabertura se deu de maneira parcial, limitada, com utilização muito aquém do que era.

O problema: cada vez que ganhamos alguns centímetros ou minutos de uso de algo que sempre nos pertenceu amplamente, mas que foi temporariamente interditado, isso já parece nos satisfazer. Perdão pela chave distópica desta conclusão, mas acostumamo-nos com migalhas que sobram de uma refeição que temos cada vez mais dificuldade em lembrar que um dia comemos.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Source link

Adicionar aos favoritos o Link permanente.