Música sertaneja: deboche é parte do espírito de Carnaval – 28/02/2025 – Gustavo Alonso


É para levar a sério a atual música sertaneja? Com essa pergunta tão comum estamos perdendo de vista a dimensão da autoironia, brincadeira e do deboche presentes no gênero. Estes valores carnavalescos também aparecem na música do sertão.

O atual hit do verão, a espantosa “Descer pra BC”, de Brenno & Matheus é um exemplo de canção que não deve ser levada a sério. Da voz esquisita da dupla à presença de ETs no clipe, tudo é ridículo e hilário. Na letra, o cowboy desce pro litoral de Balneário Camboriú e se empolga: “Os bombonzinhos tão brozeando/ pra eu chegar e morder”. E conclui: “Os cowboy vai litorando e vai torar você”, sem concordância gramatical alguma mesmo.

“Descer pra BC” não é séria. Mas, sobretudo, não é para ser levada a sério. Como sinônimo de cultura massiva nos dias de hoje, o sertanejo incorporou duas longas tradições da arte popular: 1) a proposta de ser um painel da atualidade; e 2) a ironia e o deboche como recursos de linguagem. A música sertaneja, tal como o antigo “teatro de revista”, canta de forma debochada sobre um fenômeno atual, vivido pelas multidões. Mas sem pretensões de ser obra-prima, pelo contrário.

Surgido na França, o teatro de revista é um gênero teatral de gosto popular que teve importância na história das artes cênicas no Brasil do século 19 até meados do 20. Com frequência apelava à sensualidade para fazer sátira social, política e de costumes. Geralmente os espetáculos eram compostos de esquetes entremeados por musicais e dança. E, tal qual uma revista, as peças do teatro de revista abordavam assuntos quentes do mês ou da semana.

Hoje o teatro de revista perdura na música sertaneja, mas também na infinidade de comediantes de stand- up, que viralizam nas redes sociais e nos palcos ironizando os acontecimentos fortuitos recentes.

Como no teatro de revista, os exemplos de ironia aos temas e valores do presente são frequentes em parte da produção sertaneja. Em 2021 o cantor sertanejo Thierry cantou “Cabeça Branca”, a história de um sugar daddy: “Cabeça branca é um cidadão de bem/ Um empresário que precisa relaxar/ Fim de semana ele pega as novinhas”. E Thierry não perde o bom humor: “O dono da lancha é o cabeça branca/ A champanhe, quem banca é o cabeça branca/ Porque, novinha, na hora da selfie,/ Junto com as amigas, o coroa nunca aparece.”

O mesmo Thierry lançou há algumas semanas “Tadala”, uma ironia à sofrência sertaneja: “Eu fui comprar um Tadala de 20/ Quando vi minha ex/ Comprando uma pílula do dia seguinte/ Aí doeu/ Ela foi mais rápida que eu”. E logo depois ele fala: “Ô muié retada! Quando a gente tá indo, elas já estão voltando”. Para não deixar dúvidas, no início da canção é dito em alto e bom som: “Se for nos escutar e levar a sério, nem escute.”

Há outra “Tadala”, cantada por Gabriel Gava: “Tadala é vida, tadala é massa/ Pra corrente não cair na segunda pedalada”. Também há o “Tira o DIU”, de Munhoz & Mariano: “Tá sobrando espaço nessa casa/Sabe o que eu quero?/Um sorriso banguelo/Andar pela casa pisando nos legos/Só depende de você tirar o DIU que é sucesso”. Faz lembrar a “Pare de Tomar a Pílula”, clássica de Odair José de 1973.

Mas aquela que considero uma das mais debochadas canções da música sertaneja é “Se Namorar Fosse Bom”, que Bruninho & Davi gravaram em 2012. Simplesmente hilária, o clipe faz autoironia e deboche de toda a seara sertaneja, de Luan Santana e Gusttavo Lima a Fernando & Sorocaba.

Através da ótica do teatro de revista é possível ler a música sertaneja de forma menos séria. Não se trata tanto de buscar uma obra-prima artística, mas de pensar como o cotidiano é representado e ironizado pelos sertanejos. Uma parte considerável da música sertaneja deve ser analisada com os mesmos ouvidos que escutamos os Mamonas Assassinas ou as canções dos Raimundos, por exemplo. Talvez esteja aí uma chave interpretativa menos pretensiosa e mais sagaz.

A chacota musical explica por que, desde 2010, um bloco sertanejo chamado Chora Me Liga toma as ruas do Rio de Janeiro com muito sucesso. Em São Paulo, o Bloco Bem Sertanejo, de Michel Teló, vai para o segundo ano desfilando no Ibirapuera. Entre as sofrências e canções do agro, há também aquele subgênero de ironia e deboche que está na raiz do Brasil carnavalesco. E também sertanejo.


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