O Drama do Supermercado e a Comédia do País: Entre Filé e Calvin Klein

 Durante todos esses anos que estou aqui nesse maravilhoso planeta, feito em apenas sete dias, um dos ditados mais verdadeiros que já ouvi veio da minha estimada gestora. E é tão profundo que nem Confúcio teve capacidade de externá-lo: “O difícil não é comer filé, mas deixar de comer”. Sentiu o drama, hein?

Percebi que muitas pessoas, inclusive algumas do meu círculo mais íntimo, abriram mão de hábitos que pareciam inegociáveis. E, mesmo fingindo indiferença, por dentro o estrago é grande. O pior é que somos testados várias vezes por dia e fingimos que está tudo bem. Quer que eu prove? Depois não diga que não avisei.

A Picanha e o Saudosismo do Carrinho de Compras

No supermercado, me vi parado em frente a uma linda vitrine de carnes e, de repente, fui tomado por um saudosismo absurdo. Lembrei dos domingos especiais, quando uma peça de picanha, acompanhada por uma cervejinha bem gelada, transformava o dia em um evento sagrado. Mas o susto não parou aí. Comecei a perceber que não era só a picanha que havia desaparecido do meu carrinho – outras partes do bovino também não me pertenciam mais. E lá se foi a memória do meu parmegiana, sumindo lentamente como uma cena de filme triste.

O Frango e o Pé de Galinha: A Decepção Culminante

Mas eu sou brasileiro, não desisto nunca! Parti para o frango, convicto de que o galináceo poderia aplacar minha decepção. A variedade era grande: coxa, sobrecoxa, peito, assa… Até que um novo corte apareceu de forma melancólica diante de mim: o pé de galinha. Meu amigo, confesso que vieram lágrimas nos meus olhos e uma espécie de pavor, como se os membros inferiores da galinha me mostrassem que depois dali só restavam as penas.

Biscoitos e a Realidade da Inflação

Nas prateleiras dos biscoitos (ou bolachas), um show de cores, variedades, sabores, tudo pronto como um local instagramável para postar segurando uma daquelas pepitas de ouro, uma verdadeira ostentação. Foi o que eu pensei ao ver os preços, que, inversamente aos tamanhos das embalagens, subiram iguais aos foguetes de Elon Musk, porém sem dar ré.

A Solitária Escolha das Bebidas

No setor das bebidas, me senti completamente deslocado. Como um garoto de 8 anos que, no seu aniversário, o pai leva para a sorveteria para ele ver os filhos dos ricos tomarem sorvete. Mesmo assim, passei os olhos nos produtos e sobrou para mim uma cachaça. Pensei: quando eu for presidente, eu compro.

Higiene Pessoal: A Fuga dos Perfumes de Luxo

Na seção de higiene pessoal, foi tranquilo. Creme dental, sabonete e papel higiênico. Perfume? Não, amigo. Quem era acostumado ao Calvin Klein não se adapta a qualquer aroma. Nisso eu concordo com o presidente: está caro, não compre. Acredito que ele não seja a pessoa qualificada para dar sugestões em economia doméstica, pois a última vez que ele entrou em um supermercado ainda tinha todos os dedos das mãos.

O País e a Comédia do Cotidiano

Meu amigo, a situação não é fácil. Me sinto como se estivesse em uma grande comédia, com personagens desempenhando papéis sem nenhuma qualificação, pelo menos para fazer o melhor pelo país. São pronunciamentos hilários, feitos por uma gente sem conexão com a realidade, ultrapassada, obsoleta, sem credibilidade e achando que do outro lado da tela tem pessoas do seu naipe, que acham graça em historinhas de ovo de ema e acreditam que, na sua larica, cuscuz com ovo é o seu desjejum favorito.

Fazem uns espetáculos do absurdo, como se fantasiar de petroleiro, justamente na empresa que saquearam e com uma animadíssima plateia de 30 pessoas cantando de boca fechada. É, meu amigo, o elenco é qualificado e versátil, mas o público é sofrido e humilhado.

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