Pesquisadores brasileiros de IA são barrados pelos EUA – 25/03/2025 – Mercado


Enquanto se acirra a disputa estratégica entre Estados Unidos e China pela liderança tecnológica em inteligência artificial (IA), dois brasileiros que pesquisam sobre o tema tiveram seus vistos negados pelo consulado americano.

Autoridades dos EUA questionaram ambos sobre os seu estudos a respeito da tecnologia e, em um dos casos, sobre uma visita a Taiwan. Embora não exista política migratória americana que trate sobre o desenvolvimento de IA, uma das portarias editadas pelo presidente Donald Trump sugere que os funcionários de consulados reforcem o rigor das análises de pedidos de entrada no país.

A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, por meio de sua assessoria de imprensa, afirma que, por política do governo americano, não comenta sobre casos individuais de visto.

Há duas semanas, a pesquisadora a especializada em IA Mírian Lima foi convidada a apresentar um de seus projetos em uma universidade americana no dia 17 de abril. Sem nunca ter ido aos Estados Unidos, ela contratou uma agência para entrar com o processo de visto B1/B2 (turismo e negócios) em caráter de urgência.

Ela afirma que levou todos os documentos pessoais e os relativos à apresentação na universidade americana na entrevista no consulado, mas teve o visto negado sob alegação de que não comprovou que voltaria ao Brasil. “Eu só discordo porque eu tenho residência fixa, minha filha, meu esposo, minha vida acadêmica, meus clientes e meus trabalhos, que são voltados inclusive para o direito brasileiro”, diz Mírian.

Segundo a pesquisadora, foram poucas perguntas na entrevista. A maioria, diz, relacionadas ao conteúdo que iria apresentar. “Eu mencionei que sou autônoma, que era parte de um evento de tecnologia. Não quiseram ver nada. Foram poucas perguntas e dali um pouco me reprovou. Eu fiquei sem entender”, afirma Mírian.

De acordo com documento entregue pelo agente consular, Mírian foi considerada inelegível ao visto conforme seção 214 (b) da Lei de Imigração e Nacionalidade dos Estados Unidos. É a recusa mais comum para vistos temporários. A decisão significa que o requerente não conseguiu provar que não tem intenção de imigrar para os EUA.

“Colegas que tiraram o visto no ano passado vão me representar no evento. Como a entrevista só teve foco no que eu faço profissionalmente, estou com receio até de falar do projeto e sofrermos retaliação”, diz a pesquisadora.

Outro pesquisador de IA proibido de entrar nos EUA foi fundador da Maritaca AI, Rodrigo Nogueira. Ele teve seu visto para os Estados Unidos temporariamente bloqueado após ter sido inicialmente aprovado. Ao jornal O Estado de S. Paulo Nogueira disse que sua área de atuação deve ter sido o motivo de país ter barrado sua entrada.

O pesquisador, considerado um dos maiores nomes brasileiros sobre IA, havia solicitado o visto com o objetivo de participar como palestrante em um evento no MIT (Massachusetts Institute of Technology) programado para o próximo dia 18, onde discutiria o desenvolvimento de inteligência artificial no Brasil.

Nogueira confirmou à Folha que passou pela entrevista para renovação do visto no dia 27 de fevereiro no consulado dos EUA em São Paulo e obteve a aprovação. No entanto, no dia seguinte, foi informado de que seu visto estava temporariamente bloqueado para análise pelas autoridades americanas.

Segundo o pesquisador, o consulado exigiu o motivo de uma viagem que ele fez a Taiwan em 2023, onde participou da conferência Sigir, e sua tese do doutorado realizado na Universidade de Nova York, onde atuou no mesmo laboratório que o francês Yann LeCun, considerado um dos padrinhos da IA e ganhador em 2018 do Prêmio Turing (o “Nobel da Computação”).

Mesmo enviando seu currículo completo, cópia da tese e o link onde os seus mais de cem artigos publicados poderiam ser acessados, teve o visto negado e foi informado de que não poderia se candidatar a um novo visto pelos próximos 12 meses.

A negativa do visto ocorreu sob a seção 221(g) da lei de migração dos EUA. Isso significa que não é uma recusa definitiva, mas que o pedido de visto foi colocado em processamento administrativo enquanto o oficial consular analisa e toma uma decisão final sobre a emissão. No entanto, segundo Nogueira, o consulado não diz quando ou se vai oferecer uma nova resposta.

Enquanto isso, a organização do evento no MIT propôs a Nogueira que sua apresentação fosse realizada de forma remota. Ao jornal O Estado de S. Paulo, ele disse que pensava em não participar do evento, como um protesto contra as autoridades americanas. Porém, à Folha ele afirmou que planeja manter sua participação, dada a importância do evento.



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