Gosto muito do Nosso Senhor para assistir ao ‘The Chosen’ – 26/03/2025 – Cotidiano


“A semana mais famosa da história da humanidade e, provavelmente, a mais retratada nos palcos e nas telas de todo o mundo ganhará mais uma versão com o lançamento da quinta temporada da série ‘The Chosen’ (‘Os Escolhidos’)”, noticiou a Folha. Ninguém merece.

Nem um episódio inteiro do “The Chosen” consegui ver. Em primeiro lugar, gosto demasiado de Nosso Senhor para querer assistir ao “The Chosen”. Como a minha tendência é ser um evangélico picuinhas, não quero ver Jesus nem pintado.

Escrevo sobre a série lembrando as palavras do teólogo abençoadamente louco que Jacques Ellul foi, “apenas na encarnação de Jesus deu para acreditar no que os nossos olhos veem”. Ou seja, qualquer imagem que depois se faça da vida de Cristo a trai.

Para mim, quem mais acredita em Jesus é quem aqui não o quer ver. O cinema e a TV só dão visões beatíficas a quem falta este critério. É tudo ou nada: na Nova Jerusalém, sim, os meus olhos verão Jesus e as minhas mãos vão tocar nele. Até lá, passo bem sem o ver. Como cristão evangélico, a minha tarefa não é espreitar Jesus, é só esperá-lo.

Em segundo lugar, gosto demasiado de cinema e de TV para querer assistir ao “The Chosen”. Os cinco minutos que vi foram uma tortura: um desfile de emoções americanas redondinhas e marteladas em cenários do Oriente Médio.

A areia e a terra comoveram-me, confesso. De resto, a expressão sempre paciente de Jesus irritou-me, os encontros providenciais entre o Senhor e os coitadinhos enjoaram-me, a parte em que Pedro cai num sono pesado ao trincar a maçã envenenada não me convenceu. (Espera… acho que embaralhei as películas da Disney.)

Perdão, mas entendam a confusão que fiz. Este novo Jesus que foi dado ao mundo, plasmado no sorriso bisonhamente canônico do ator Jonathan Roumie, levará décadas de terapia para ser expulso do nosso inconsciente coletivo.

Todo o “The Chosen” é uma homenagem à dissonância cognitiva: os católicos, que daqui de Portugal, de onde escrevo, parecem não lhe prestar grande atenção, merecem-no como prêmio; os evangélicos, que deveriam iconoclasticamente desprezá-lo, merecem-no como castigo. Que série.

O artigo da Folha esclarece que: “diferente das fases anteriores, nesta Jesus demonstra sentimentos até então não revelados, como a ira”. Chega tarde esta ajuda. Por mim, “The Chosen” poderia basear-se apenas no ponto mais alto da vida de Jesus. E quando escrevo mais alto, falo literal e fisicamente: quando ele subiu aos céus. A série, para ser aprovada por mim, começava na última cena da vida do Mestre, quando ele ascende e, por isso, já ninguém o consegue ver.

Aí sim, quando Cristo já se confunde com as nuvens, o filme começaria: grande plano dos céus; aquele azul celeste e limpo da Palestina; a câmera desce um pouco e mostra uma pequena multidão perplexa, com os olhos semicerrados pelo esforço frustrante de, ao sol, tentar olhar à distância numa época sem a ajuda de lentes e óculos. Subitamente, aparecem dois homens vestidos de branco. “Estão a olhar para quê?”, perguntam com uma impaciência indisfarçável. Asseguram, ainda assim, que o Jesus que subiu há de voltar do mesmo jeito. Mas o grupo acaba por dispersar.

E dispersa e dispersa. O grupo dos que queriam ver Jesus já não consegue vê-lo mas não se cala acerca do tempo em que o viu. Sempre falando, o grupo dispersa por todo o mundo mediterrânico. É um grupo que fala do que viu, do que já não vê, e do que acredita que voltará a ver: nasce muito trabalho comunicativo desta relação conturbada com a visão. Não dá, por isso, para ver tudo o que passa na TV ou no cinema. O verdadeiro filme de Jesus não está na tela. Black out.



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