Evangélicos são cúmplices da violência contra mulheres? – 27/03/2025 – Cotidiano


O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou um estudo sobre a violência contra meninas e mulheres. Do total de mulheres que sofreram violência, quase a metade (42,7%) é de evangélicas. Antes de analisar esses dados, apresento duas cenas que eu registrei sobre como igrejas tratam a temática da mulher hoje.

Cena 1: O jovem tímido chega ao meu consultório e diz que o pastor o enviou à terapia porque agarrou com força o braço da namorada numa briga. Logo emplaca o que parece ser outro assunto: presenciou durante anos o pai alcoolizado batendo na mãe. Evangélica, a mãe não encontrou auxílio para sair do relacionamento abusivo, nem na antiga igreja nem na família.

Cena 2: Numa igreja batista acontece palestra sobre “feminilidade”. As adolescentes estão embevecidas com a promessa de vida cor-de-rosa da mulher que for submissa ao marido. Ao se submeter, coloca-se “na linha da vontade de Deus”, argumenta a palestrante. Entre as mulheres maduras presentes, há suspiros, olhares tristonhos e até náusea.

Segundo a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nas comunidades religiosas há tanto auxílio para coibir a violência como legitimação da mesma. Igrejas às vezes são a causa, às vezes a solução. Elas podem oferecer aconselhamento, apoio para a família e até orientação jurídica. Ou viram as costas para a denúncia de maus tratos ao recomendarem para a mulher “permanecer em oração pela mudança do marido”.

Frequentemente, a igreja percebe a vítima como parcialmente responsável pela violência conjugal —ou porque “não foi submissa”, ou “não orou o suficiente”. A pesquisadora Isabela Matosinhos, do Fórum, comenta que estes conselhos “apenas fazem com que a mulher siga na situação de violência”.

Fui criada frequentando uma igreja batista de imigrantes alemães. Admirava as minhas avós e a geração de minha mãe pela dedicação aos trabalhos da igreja. Era um lugar de emancipação para elas: trocavam reflexões, liam, cantavam. A comunidade escutava as vozes das mulheres, que assim cumpriam a missão de serem “socorro e confronto” para os homens, como expressa o texto original do Gênesis (2.18, tradução de André Chouraqui).

Mas, recentemente, houve mudanças: os sermões se tornaram mais voltados a normatizar a vida cotidiana, trazendo modelos de comportamento “ideal/bíblico”. Mulheres têm escutado à exaustão a orientação para serem submissas aos maridos (Efésios 5.22-23) e guardarem silêncio em público (I Tim 2.12).

Aos homens, a mensagem costumeira é para que assumam seu papel de “cabeça do lar”, com a omissão do texto bíblico que recomenda aos maridos: “Amai vossas mulheres como Cristo amou a igreja”. Na sequência, Paulo escreve que amar a esposa é se entregar por ela e cuidar dela como se cuida do próprio corpo (Efésios 5.25-31).

Submissão feminina é o ponto comum entre o que homens e mulheres aprendem em suas igrejas. “‘Sede submissas’ é a frase mais cruel da Bíblia”, diz a professora Regina, uma das pessoas citadas no livro “O Grito de Eva: a Violência Doméstica nos Lares Cristãos”, de Marília de Camargo César (Thomas Nelson Brasil).

O incremento da violência contra a mulher pode estar relacionado, entre outras coisas, à visão fundamentalista que se infiltrou nos seminários teológicos e na pregação das igrejas históricas nos anos 2000, como reação à teologia liberal e ao feminismo. Será que esse ensino, tão ao gosto do machismo na cultura, recebendo um forte aliado da direita radical, aumenta a violência apontada pelo Fórum?

Volto à cena 1 do rapaz que agrediu a namorada: Convidado com frequência à casa do pastor, o moço tímido testemunha um relacionamento de casal com respeito, diferente do que vira na infância. O pastor percebeu que era necessário que o rapaz tivesse outro modelo de masculinidade, de amar como Cristo, para desfazer o “piloto automático” de sentir-se dono da mulher. Este pastor não se tornou cúmplice de mais uma história de agressão.

E na cena 2 da aula de feminilidade? A pesquisa do Fórum mostra em números o resultado desse ensino pela metade que ilude jovens e desanima mulheres maduras. Felizmente, há organizações como o Christian Men’s Network, que em seus cursos pela Universidade da Família ensina homens a respeito de hombridade e coragem segundo Cristo, desfazendo os ideais machistas que aumentam as estatísticas acima. Será que os pregadores terão coragem e hombridade para pregar sobre isso?



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