Racismo na TV:Diretor diz ter sido moído por mediar queixa – 28/03/2025 – Mônica Bergamo


O diretor artístico da novela “Nos Tempos do Imperador”, Vinicius Coimbra, diz que a decisão judicial de condenar a Globo a pagar R$ 500 mil à atriz Roberta Rodrigues por assédio moral e racismo institucional durante as gravações da trama mostra que o problema estava relacionado com práticas existentes dentro da emissora, e não com ele.

“Alguns jornalistas sensacionalistas me colocam como o responsável pelo que aconteceu na novela. Então, essa reparação é importante de ser feita. A questão deles [dos atores negros] era com a Globo, não comigo”, afirma Coimbra à coluna.

O caso veio à tona em fevereiro de 2022. Na ocasião, a coluna revelou que o departamento de compliance da Globo havia recebido uma denúncia de racismo nos bastidores das gravações da trama, que foi ao ar entre agosto de 2021 e fevereiro de 2022.

Coimbra disse que não foi intimado a testemunhar na ação e que não há nenhum outro processo contra ele relacionado ao assunto. O que ele sabe é que alguns dos atores se sentiram incomodados pelo fato de o diretor ter chamado uma reunião apenas com o elenco negro da novela.

A trama sofria críticas por exibir uma cena em que sugeria que uma personagem branca havia sido segregada por negros, numa espécie de “racismo reverso”. A autora da novela pediu desculpas publicamente após a repercussão.

Coimbra afirma já ter pedido desculpas publicamente por ter promovido o encontro só com os profissionais negros e que agiu desta forma porque não imaginava que essa atitude poderia ofender algumas pessoas. Ao mesmo tempo, afirma considerar que a reunião foi “importantíssima”.

“Por mais de duas horas, eles falaram dezenas de coisas que eu nem imaginava e que não se relacionavam com o meu trabalho e com a minha equipe. Eram questões de produção, questões salariais [diferenças na remuneração entre atores brancos e negros], de falta de apoio psicológico para algumas cenas, uma série de coisas.”

“Acho que conscientemente de forma nenhuma [fui racista]”, diz. “Por melhor que tenham sido as minhas intenções, [a reunião] acabou gerando um desconforto em algumas pessoas. Entendo esse desconforto. Mas achei que a reunião teve um benefício maior, que foi coletar aquelas informações [de insatisfação do grupo] e levar para os departamentos necessários, servir de ponte entre aquele elenco e a empresa.”

Para Coimbra, o que aconteceu com ele foi uma espécie de “tempestade perfeita”. “Os atores tinham reivindicações que me pareciam muito legítimas, e acho que a Globo teve uma postura de tentar sanar aquelas questões. Entrei no meio, tentando mediar esses dois lados, e acabei sendo moído na fricção.”

Ele complementa que, mais importante do que a sua experiência pessoal, é ver que “a sociedade está melhorando em diversos aspectos”. “A Globo está realmente com muito mais artistas negros participando [das produções]”, complementa.

Em sua decisão, a juíza Aline Gomes Siqueira, do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, entendeu que o ambiente de trabalho durante as gravações da novela foi marcado por práticas de assédio moral e racismo institucional. Esse ambiente, de acordo com a magistrada, teria causado o adoecimento da atriz Roberta Rodrigues, que recebeu diagnóstico de burnout e se afastou do trabalho por cerca de três meses. Cabe recurso.

Procurada, a Globo disse que não comenta ações em andamento na Justiça.

No processo, a emissora negou as acusações, alegando que não houve qualquer tipo de discriminação ou segregação racial. E defendeu que, mesmo após o fim do contrato das gravações da novela, Roberta atuou em outras produções da emissora. A empresa disse ainda que adota políticas de inclusão.

Para Coimbra, o mais importante de tudo o que ocorreu foi a discussão levantada pela sociedade. “Acho que a novela trouxe à tona uma questão que era muito mais antiga. Eles foram discriminados por anos. Não só na Globo, mas em qualquer lugar que eles pisassem, existia um tratamento diferenciado, que está sendo corrigido, graças a Deus.”

Um mês depois de o caso se tornar público, o diretor foi demitido. Segundo informado pela emissora a ele na época, a causa foi assédio moral. Mas ele afirma que nunca recebeu explicações da empresa do que teria feito. “Eles falam que pelo compliance, precisam manter em sigilo. E fica assim, estou sendo demitido, vou ser linchado publicamente, e vocês não me falam nem o porquê.”

Na época do ocorrido, ele diz que enfrentou uma “pequena tragédia”. “Quando você é considerado racista publicamente, pode imaginar o que acontece com a sua família. Meu casamento se desfez, eu tinha trabalhos já engatilhados que foram cancelados.” Afirma também que só permaneceram ao seu lado os amigos de verdade. “Quando você perde o poder e o dinheiro, só fica do seu lado quem realmente gosta de você.”

Diz que, por outro lado, a situação também teve um lado bom, ao permitir que ele conhecesse profissionais do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, que fizeram a websérie “É o Complexo” (2022). Juntos, eles planejam lançar uma trilogia de filmes que vão usar três composições de Chico Buarque para refletir sobre a realidade das favelas cariocas.

O primeiro longa, que tem “Meu Guri” como música-tema, já foi feito com recursos próprios, segundo Coimbra. “Passado esse pior momento, estou feliz com essa nova perspectiva de trabalho. Estou bem animado porque, de certa forma, me conectei mais profundamente com essa questão dos direitos humanos. Vi o quanto o racismo e o machismo realmente alteram a vida das pessoas, e outras práticas nesse nosso Brasil que precisam ser revistas.”

Além da trilogia, ele também vem desenvolvendo um programa de debates sobre direitos humanos em parceria com a atriz Ju Colombo.


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