INOVAÇÃO PASTEURIZADA, TECNO FEUDALISMO E CONTRACULTURA

SXSW 2025: uma ode às “esquisitices” que mudam o mundo

Vivemos tempos desafiadores. Sim, a escalada de pensamentos extremistas e autocráticos na maior economia do mundo preocupa. Ao mesmo tempo, observamos os “Tech Bros”, CEOs das grandes empresas de tecnologia, se alinhando a essa filosofia, ampliando ainda mais as tensões sociais, econômicas e ambientais. Em meio à euforia das últimas novidades tecnológicas apresentadas no SXSW 2025, talvez seja o momento ideal para resgatar aquele espírito crítico e inquieto da contracultura que, historicamente, ajudou a criar mudanças impactantes em nossa história. Douglas Rushkoff, em sua sessão “Weirding the Digital: An Invocation”, despertou em mim a clareza de que, ao questionar e desafiar o status quo, não apenas protegemos nossa criatividade e originalidade, mas também abrimos portas para mudanças mais ousadas e autênticas.

Uma preocupação que ficou evidente é que os algoritmos estão deixando tudo previsível demais, homogêneo demais, pasteurizado demais. Rushkoff lembrou bem dos primórdios do SXSW, quando o evento reunia pessoas realmente “esquisitas” (“weird“, como ele disse), aquelas que de fato desafiam o óbvio. Ele afirma que hoje o festival está mais comercial e menos provocador, dando muito espaço para as big techs, e perdendo esse espírito crítico e autêntico de seus primórdios.

Nesse contexto, a Inteligência Artificial corre o risco de ampliar ainda mais essa previsibilidade, privilegiando sempre o que é provável em detrimento do possível. Criatividade, originalidade e inovação ficam ameaçadas em um mundo moldado por algoritmos que preferem o seguro ao ousado.

Rushkoff trouxe, também, uma provocação bem interessante sobre a contradição nas atitudes das grandes empresas de tecnologia. Seus CEOs dizem defender o capitalismo, mas na prática promovem monopólios cada vez mais centralizadores. Ao incorporar empresas e consolidar mercados, acabam dificultando justamente aquilo que dizem valorizar: inovação genuína.

Ele desenhou um cenário um tanto assustador, um tipo de feudalismo digital, onde poucos magnatas controlariam as plataformas e territórios digitais, ditando as regras e usando a IA como ferramenta para reforçar esse controle. Me lembrou do livro “Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo”, de Yanis Varoufakis. O resultado? Uma perda enorme da diversidade e inovação, além de uma padronização absurda de ideias e visões de mundo.

Rishad Tobaccowala, na sessão “The Great Rethinking: How to Navigate the Future of Work”, trouxe um dado que me deixou ainda mais intrigado: apenas 22% da Geração Z acredita no capitalismo tradicional, contra 67% das gerações anteriores. Claramente há algo errado com o modelo atual, que parece sufocar a inovação e o pensamento crítico das novas gerações. Tobaccowala também provocou, defendendo uma transformação radical no mundo do trabalho, onde criatividade, flexibilidade e liberdade vençam estruturas rígidas e ultrapassadas — algo bem alinhado ao espírito contracultural que defendo aqui e, ao mesmo tempo, tão distante do conceito RTO (return to office) tão preconizado pelas grandes empresas, ainda viciadas na cultura do comando e controle.

Scott Galloway, em suas previsões para 2025, também alertou sobre os riscos da centralização do controle da IA nas mãos das grandes empresas, limitando a verdadeira diversidade de pensamento. Ele não acredita que a IA levará à liberdade criativa, mas sim que exacerbará o isolamento e a desconexão, trazendo consequências sérias para nossa saúde mental. Rohit Bhargava, em “7 Non-Obvious Secrets Of Understanding People To Predict the Future”, complementou dizendo que a inovação genuína nasce exatamente da mistura inesperada de perspectivas diferentes, incentivando a ousadia em detrimento do comodismo.

Amy Webb, mesmo imersa em suas milhares de tendências, trouxe uma reflexão valiosa sobre a importância de não ficarmos presos às distrações do cotidiano—o que ela chama de “efeito pedrinha no sapato”—para conseguirmos olhar criticamente para o futuro. Essa capacidade crítica é justamente o que uma nova contracultura digital poderia proporcionar.

Nesse cenário, fica ainda mais relevante o que Cheryl Miller Houser trouxe em sua sessão “Human-Centered Storytelling: Driving Connection & Culture“. Em vez de apostar todas as fichas em algoritmos, precisamos voltar nossa atenção para o que nos torna humanos: histórias autênticas, imperfeitas e inspiradoras. São essas histórias reais—de luta, transformação e conexão—que criam marcas significativas e que a inteligência artificial dificilmente conseguirá reproduzir. Talvez aí esteja a chave para uma nova contracultura digital: valorizar profundamente as narrativas humanas como forma de preservar nossa singularidade e impacto positivo no mundo.

Precisamos resgatar com urgência o espírito ousado e questionador da contracultura, como fizeram os movimentos hippies dos anos 1960, a Tropicália no Brasil da ditadura, os punks dos anos 1970, a visão libertária que criou a internet, e o movimento open source na tecnologia, para citar apenas alguns. Assim como tais movimentos desafiaram padrões e reinventaram suas épocas, hoje precisamos de uma contracultura digital capaz de enfrentar a homogeneização tecnológica e o tecno feudalismo, protegendo nossa originalidade e garantindo um futuro de inovação plural, diverso e autenticamente humano, algo que a inteligência artificial e os algoritmos não serão capazes de fazer.

Autor:

Marcelo Aquilino, Chief Media & Data Officer da Agência Ginga

O post INOVAÇÃO PASTEURIZADA, TECNO FEUDALISMO E CONTRACULTURA apareceu primeiro em Jornal Tribuna.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.