Série da Netflix reflete os desafios e o impacto das redes sociais nos adolescentes

A série Adolescência, da Netflix, tem alcançado grande sucesso, tornando-se a mais vista e comentada de todos os tempos. A trama segue a história de Jamie Miller, um adolescente de 13 anos acusado de matar uma colega de escola, Katie Leonard. Um dos temas abordados na série é o conceito de incels, que se refere a celibatários involuntários, geralmente homens que responsabilizam as mulheres pela insatisfação em sua vida sexual.

Neste contexto, dissemina-se a teoria 80/20, que afirma que 80% das mulheres se sentiriam atraídas por apenas 20% dos homens, deixando os demais sem chances de alcançar satisfação amorosa.

Enquanto a internet e as redes sociais, por um lado, aparentam diminuir as distâncias, permitindo a conexão com pessoas de várias partes do mundo e o acesso a uma enorme quantidade de informações, isso é, na verdade, uma ilusão de proximidade. O que as redes sociais efetivamente fazem é dividir os indivíduos em bolhas virtuais, como a dos incels, em que as pessoas interagem apenas com aqueles que compartilham as mesmas ideias, afastando-se das diferenças.

Isso enfraquece a capacidade de lidar com as diferenças, e a violência se torna um reflexo desse processo. A  incapacidade de conviver com as diferenças alimentam a desumanização do outro. Como consequência, surge o desejo de eliminar aqueles que representam uma diferença do padrão social, como negros, gays e, no caso da série, mulheres, com o recurso extremo de até mesmo matar.

O psicólogo Bruno Fernandes Borginho alerta que o ambiente virtual pode se tornar um poderoso formador de opinião na construção da identidade de adolescentes, caso não haja uma supervisão rigorosa por parte dos responsáveis. Ele destaca que a adolescência é uma fase de vulnerabilidade, marcada por mudanças físicas, hormonais, sociais e pessoais. As comunidades que discutem a masculinidade de maneira misógina ou incentivam comportamentos agressivos acabam preenchendo uma lacuna deixada pela falta de modelos de masculinidade saudável.

O machismo se manifesta de maneira tanto sutil quanto explícita na série. Isso fica evidente em cenas como o policial que delega os cuidados do filho à mãe, o marido ríspido com a esposa sob a suposição de que ela estaria revelando detalhes sobre a prisão do filho, ou o outro policial que desautoriza a psicóloga, comparando-a com o psicólogo anterior, do sexo masculino. Até mesmo entre mulheres, como quando a mãe pergunta à filha se o namorado está cuidando bem dela. O machismo está profundamente enraizado na sociedade, tornando-se natural em gestos aparentemente simples.

O psicólogo também observa que a série apresenta duas gerações de homens. “O pai, com uma visão mais tradicional e o filho, que não sabe lidar com as mulheres que possuem autonomia e poder de autodeterminação. Também temos o exemplo do bullying vindo das mulheres e o adolescente não sabendo lidar com isso. Se não houver diálogo de toda a família, demonstrando que o papel do masculino e feminino são igualmente importantes, comunidades como o “incel” acabam suprindo essa falta e deturpando a imagem da mulher como algo negativo, afastando ainda mais os homens de um relacionamento saudável”.

Um momento marcante que evidencia o comportamento agressivo, reflexo da sociedade atual, ocorre durante a conversa do protagonista com a psicóloga. “Nesse instante, ele revela duas vertentes de sua personalidade, desenvolvidas para sua própria sobrevivência: ora se mostra agressivo diante de qualquer sinal de rejeição, ora demonstra uma intensa necessidade de aprovação, buscando afirmar seu valor. A psicóloga, em seu papel de profissional forense, precisava manter a neutralidade, mas, naquele momento, o protagonista buscava, simultaneamente, a validação e uma intervenção que o confrontasse sobre sua responsabilidade no caso”, explica o psicólogo.

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um psicólogo pode exercer um papel fundamental, ajudando a entender o que realmente está acontecendo. | Foto: Reprodução/Istock

As relações de autoridade se formam primeiro em casa. Um pai que não acompanha as mudanças sociais e não ensina seu filho a respeitar as mulheres, e uma mãe que também não mostra ao filho a importância da voz ativa da mulher, não são boas referências para o desenvolvimento dos adolescentes em um cenário social moderno.

Segundo o psicólogo, os pais, independentemente de estarem juntos ou separados, precisam demonstrar respeito mútuo, valorizar os papéis de cada um e incentivar a divisão justa do poder e das responsabilidades em qualquer relacionamento.

Na série, o personagem Jamie passa os dias no quarto, e a mãe de Jade não sabe a que horas ela deveria voltar para casa, o pai acreditava que seu filho estava seguro, justamente por estar em casa. Os professores são descritos gritando nas salas de aula, e o sofrimento dos adolescentes parece ser ignorado. Esse cenário impacta porque muitas pessoas se reconhecem nas situações apresentadas.

Mudanças necessárias

A sociedade como um todo pode influenciar esse tipo de comportamento. Pais e escolas precisam estar atentos durante a fase de formação do caráter dos adolescentes. O psicólogo destaca alguns comportamentos que merecem atenção. “Isolamento, desinteresse por relações sociais, preocupação excessiva com a aparência ou a autoimagem, sinais de baixa autoestima, expressões disfuncionais de raiva ou tristeza, dificuldade em lidar com erros e comportamentos discriminatórios em relação às diferenças são indícios de que é necessário redobrar a atenção à saúde mental de crianças e adolescentes”, afirma.

A formação de professores é fundamental, pois, muitas vezes, os docentes são os primeiros a perceber sinais que podem passar despercebidos pela família por diversos motivos. Porém, quando os pais conseguem identificar esses comportamentos, maiores as chances de uma intervenção eficaz. Nesse contexto, um psicólogo pode exercer um papel fundamental, ajudando a entender o que realmente está acontecendo e fornecendo as orientações necessárias para um tratamento adequado.

“Cada paciente é único, mas sempre uma escuta e atenção aos detalhes do que o adolescente quer expressar, sem julgamento de valor, já é um bom primeiro passo para buscar a melhor intervenção. Dentre os métodos disponíveis podemos fazer uso de técnicas para expressão assertiva das ideias e emoções, sugestões de mudança de hábitos, as vezes incluir os pais em algumas sessões, mas sempre em acordo com o adolescente.”, afirma o psicólogo.

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