Os homens do sistema não sabem – 01/04/2025 – Deirdre Nansen McCloskey


Um otimismo maluco sobre a “política industrial” parece nunca deixar a humanidade em paz.

Nos anos 1700, o soberano inglês e o Parlamento tinham esse otimismo. Aplicaram impostos para proteger seus navios e as perturbações ligadas ao açúcar nas Índias Ocidentais. Adam Smith chamou aquilo de “sistema comercial”, também conhecido como imperialismo, e escreveu longo livro em 1776, atacando-o.

Em um livro anterior, ele já havia desdenhado com razão da ideia de que a política industrial funciona para o bem. O “homem do sistema”, encarregado da política, escreveu, “parece imaginar que pode organizar os diversos membros de uma grande sociedade com a mesma facilidade com que a mão organiza as diferentes peças em um tabuleiro de xadrez”.

Os brasileiros infelizmente estão familiarizados com a política industrial. Mas está por toda parte essa suposição de que o “homem do sistema” sabe.

Mark Carney, por exemplo, primeiro-ministro interino do Canadá, que provavelmente terá o mandato completo após as eleições, propõe uma política industrial para alcançar a “autonomia” contra as agressões bizarras de Trump. Ele quer mover as peças de xadrez para proteger o aço e o alumínio canadenses, a fabricação de carros, a extração de madeira e vários outros produtos “estratégicos”.

Carney é, ao menos na superfície, plausível, como o “homem do sistema”, capaz de fazer esse trabalho. Ele presidiu o Banco do Canadá e depois o Banco da Inglaterra. Mas altos cargos na política não tornam a política industrial sensata.

Peter Navarro, conselheiro de Trump em comércio exterior, é Ph.D. em economia por Harvard. O doutor Navarro, porém, acredita que o comércio de autopeças EUA-Canadá é ruim para os dois países.

Ele acha que o déficit da “balança comercial” que uma pessoa tem com o mercadinho do seu bairro é ruim para ela e que o papel importado do Canadá é ruim para os EUA. Ele não estudou “Introdução à Economia”. Estou tentando reunir outros economistas com Ph.D. em Harvard para devolver seus diplomas em protesto contra ele.

Meu único encontro com Carney foi quando me pediram, anos atrás, para comentar uma tese sua. Fiquei surpresa com seu pequeno entendimento de economia, apesar do doutorado em filosofia em Oxford e do bacharelado no Harvard College (ele era o goleiro do time de hóquei no gelo de Harvard). Mas ele é muito bom ao articular a afirmação dos “homens do sistema” quando estes dizem saber, melhor que você, o que você deve comprar no mercadinho. As pessoas comuns têm uma fé comovente na sabedoria dos mestres. É como a fé das crianças em seus pais —até elas se tornarem adolescentes.

Brasil, Canadá, EUA, qualquer país, de Mianmar à Suécia, não se livrará das más políticas até que seus cidadãos percebam que os “homens do sistema”, e mesmo a maioria das mulheres, não sabem. Por razões profundas, uma economia é imprevisível e não pode ser dirigida. Se não pode ser dirigida, uma política de direção nos levará para fora da estrada.

A melhor política é tirar o “homem do sistema” do volante. É o que Javier Milei tenta fazer aí ao vosso lado e o que o Canadá deveria fazer aqui ao meu lado.


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