Sérgio Ferro questiona o trabalho e a liberdade no MAC-USP – 02/04/2025 – Ilustrada


O Museu de Arte Contemporânea, o MAC-USP, abriu suas portas para uma retrospectiva muito especial: uma exposição da obra de Sérgio Ferro acompanhada por uma semana intensa de debates abarcando as múltiplas dimensões desta obra, suas colaborações e reverberações.

A belíssima mostra, em cartaz até 15 de junho, trouxe a presença de um movimento coletivo que tensionou o mundo da arte, da arquitetura e do urbanismo principalmente nos anos 1960. Liderado sobretudo por um trio de então jovens arquitetos —Ferro, Rodrigo Lefévre e Flávio Império— desde os anos 1950 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o movimento era ao mesmo tempo prático e teórico, experimental e intelectual, engajado e pedagógico.

Ferro e Império eram multiartistas —os dois se destacavam nas pinturas, nas esculturas e na colagem, enquanto o último também atuava na cenografia, como figurinista e na encenação teatral. Nas palavras de Ferro, parafraseando William Morris, a arte é o domínio do trabalho livre.

“Trabalho Livre”, que dá nome à mostra, foi sem dúvida um eixo condutor do grupo. Com Ferro, a exposição questiona o trabalho nos canteiro de obras e denuncia uma arquitetura moderna brasileira que se declarava nova mas repetia a opressão dos trabalhadores.

Com Lefévre, ela perpassa uma certa pedagogia, que partia do conhecimento daquele que projetava e não dos cânones da arquitetura, e vai, com o Império, até o papel fundamental do corpo livre como elemento de criação.

Para o trio, a emancipação e a possibilidade de transformação da nação em um país mais igualitário e respeitador de sua população não poderia prescindir de um profundo questionamento da natureza do trabalho e sua relação com a liberdade dos nele envolvidos.

Este movimento e esta trajetória foram violentamente interrompidos pela ditadura militar. Ferro e Lefévre foram presos e expulsos da faculdade, os movimentos culturais e políticos que os três estavam engajados, na arquitetura, no teatro, na cultura, foram reprimidos.

Corto o relato desta história para dar um salto no tempo para falar da atualidade, presença e reverberação deste movimento. Ao longo dos debates, se reencontraram velhas e novas gerações de arquitetos e artistas para dizer: ainda estamos aqui.

O que foi lançado e experimentado nos anos 1960 —e exilado e reprimido nos anos 1970— está presente na luta pela autogestão na moradia apesar do triunfo do complexo imobiliário financeiro, nas ações cooperativas e experimentais do MST, apesar do agronegócio e da transformação de comida em commodity, e no poder questionador da arte, apesar da prevalência da arte como ativo financeiro.

Ainda estamos aqui, ainda apostamos na utopia do trabalho livre e colaborativo, apesar das ilusões fetichistas do empreendedorismo, lembrando Sérgio e todos os que promoveram este lindo evento por nos lembrar. Estávamos quase esquecendo.



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