Conscientização do Autismo: conheça Charles e Chiquinho – 02/04/2025 – #Hashtag


Charles e Chiquinho são um fenômeno. Os irmãos autistas somam 1,2 milhão de seguidores no perfil do TikTok Cris e Marcio Vida Atípica, controlado pela mãe, Cristiane, e o padrasto, Márcio. No Instagram Crisoleu, já são 915 mil. Os garotos compartilham suas rotinas e sempre aparecem com o cordão de identificação do espectro no pescoço.

“Nós somos os influencers mais amados do Brasil”, diz Chiquinho, 13, empolgado com o novo status. Charles, 17, não compartilha do mesmo sentimento. Nos vídeos, enquanto um está animado, o outro está de cara fechada. Essa diferença clara entre os dois chama a atenção dos seguidores, que ora se identificam com um, ora com outro.

O sucesso é tanto que os irmãos não conseguem descer à área comum do prédio onde moram sem serem abordados. Durante entrevista ao #Hashtag, a pergunta “posso tirar uma foto com vocês?” foi feita mais de cinco vezes em um intervalo de 15 minutos, o que, segundo a mãe, acontece sempre.

Prematuro, Charles nasceu de cinco meses e meio. Passou por uma cirurgia cardíaca com nove dias de idade e ficou quatro meses na UTI. Aos dois anos, foi diagnosticado com autismo. “O Charles foi um milagre, as expectativas dele eram de morte”, conta a mãe, Cristiane Risoléu.

Francisco, o Chiquinho, também foi diagnosticado com TEA (Transtorno do Espectro Autista) aos dois anos e meio. Também tem TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade). Sua condição rara, a Síndrome de Savant —caracterizada por habilidades excepcionais em alguma área específica— explica o hiperfoco em geografia. “Eu sei tudo de geografia, de mapa, de metrô, as áreas urbanas e rurais, agricultura e plantações, tudo isso”, diz.

A mãe conta que foi abandonada por seus pais ainda bebê. Teve pré-eclâmpsia e quase morreu nas três gestações. “Eu tinha medo de perder o Charles, eu pensei: ‘Caramba, eu, quando neném, não fui desejada. Agora Deus vai tirar o meu.”

Todos os filhos nasceram prematuros e passaram pela UTI. Bruna, a irmã do meio, hoje tem 16 anos.

A presença nas redes sociais começou no final de 2021. Cristiane tinha o intuito de ajudar outras famílias e “mostrar o lado bom do autismo de forma leve”, segundo Márcio Alves Camargo, padrasto dos meninos desde 2020.

Hoje, o conteúdo é outro. O maior interesse pelo dia a dia diversificou os temas, que agora focam a dinâmica entre irmãos. Os dois respondem a perguntas dos internautas sobre vida pessoal, mostram atividades cotidianas e os passeios de fim de semana.

“É irônico que o conteúdo só estourou quando paramos de falar sobre o autismo”, diz a irmã, Bruna. O público, agora, vai além das famílias de autistas. Para a mãe, a presença deles nas redes sociais “furou a bolha” e mudou a forma como os adolescentes pensam o espectro.

Todos os vídeos têm na legenda “os irmãos autistas Charles e Chiquinho”, seguido de uma explicação sobre o nível de suporte de cada um. “Percebi que quando não colocava na legenda ‘os irmãos autistas’, ninguém assistia. Quando comecei a colocar, as pessoas pararam para prestar atenção.”

O presidente da Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas, Guilherme de Almeida, critica essa escolha. “O autismo é uma das características que dizem quem eles são, mas eles não se resumem a isso. Eles usam o autismo, também estão sempre com a fitinha de quebra-cabeça. Isso é muito ruim, porque você define a pessoa e reduz a pluralidade do que ela é a um único fator.”

Na avaliação de Almeida, que é advogado, pesquisador e autista de suporte nível 1, esse rótulo perpetua um estereótipo sobre o autismo que pode prejudicar a autoestima dos irmãos no futuro. Aponta uma alta exposição, principalmente por aparecerem nas redes com uniforme escolar.

Apesar disso, o advogado elogia a iniciativa dos pais. “A abordagem é muito propositiva, muito leve e tranquila. Isso acaba sendo uma exceção do que a gente geralmente vê que é de transformar o autismo numa grande tragédia.”

Almeida diz que o perfil vai na contramão de outras contas. “Muitas vezes, pais e mães recebem o diagnóstico dos filhos e automaticamente já criam um perfil para falar sobre o autismo.”

Charles resiste na hora de gravar, mas sempre participa. A mãe e o padrasto dizem que explicam para ele o propósito dos vídeos: ajudar outras pessoas. Segundo o casal, eles recebem agradecimentos de pais e relatos de pessoas que se identificaram com os irmãos, buscaram avaliação e se descobriram autistas.


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