Europa precisa garantir gasto militar na paz, diz Saab – 02/04/2025 – Mundo


Pressionada por Donald Trump, a Europa precisa decidir se irá comprometer-se a continuar pagando caro por sua defesa quando a Guerra da Ucrânia tiver acabado e as tensões no continente, diminuído.

A avaliação é do presidente e CEO da maior empresa de armamentos da Suécia, a Saab, que tem como carro-chefe o caça Gripen, operado por sete Forças Aéreas, inclusive a do Brasil.

“Precisamos ter acertos com governos e forças de defesa em toda a Europa para dizer ‘OK, esse níveis estamos preparados para pagar como um prêmio de seguro”, disse à Folha Micael Johansson, 64.

“Nós não podemos ficar abaixo de uma massa crítica para quando os tempos forem bons e talvez a demanda não seja tão alta como hoje”, completou ele durante conversa na manhã de terça (1º) na LAAD, feira bienal de defesa no Rio.

Ele se referia ao momento de euforia do mercado militar europeu. Só o valo da Saab teve um aumento de mais de 60% no último ano, quase todo concentrado de fevereiro para cá.

O índice Stoxx Defense & Aerospace, que mede o valor de mercado de empresas do setor na Europa toda, acumula um aumento de 30% desde janeiro. O motivo tem o nome e o sobrenome do novo presidente americano, que assumiu no vigésimo dia de 2025.

Trump mudou radicalmente sua política acerca do apoio dos Estados Unidos a Kiev e alinhou-se com Vladimir Putin, ainda que nos últimos dias a camaradagem esteja algo abalada. Isso fez com que parceiros europeus de Washington na Otan refizessem contas.

Além de anúncios individuais, a União Europeia disse que vai aplicar nos próximos anos até R$ 5 trilhões em defesa, o dobro do que todos os 31 membros da aliança militar despendem anualmente hoje, boa parte disso em isenções fiscais.

Resta saber o que acontece se a guerra acabar amanhã e os políticos resolverem repensar prioridades. “Se você vai tomar uma decisão de investimento enorme construindo fábricas, é claro que você precisa ter uma espécie de acordo de 15 a 20 anos de que essas coisas estarão lá”, diz o sueco.

Em relação à mais recente entrevista exclusiva que ele havia concedido à reportagem, em 2022, Johansson transparece mais incerteza. Naquele ano, todos sabiam quem estava ao lado de quem; agora, o modelo da paz em si encerra perigos, na sua vez.

“Como nós vamos apoiar a Ucrânia depois de um cessar-fogo razoável e garantir que não vamos simplesmente acabar em uma situação de ameaça, mais difícil do que durante a guerra de fato?”, questiona.

Até aqui, a Suécia é o sexto maior doador individual nominal de ajuda militar a Kiev, tendo enviado R$ 29 bilhões até o fim do ano passado. Os EUA lideram com folga o ranking, com R$ 393 bilhões, mas agora o cenário é nebuloso.

Isso se estende à Europa como um todo. O continente, diz, “está meio hesitante sobre quanto apoio teremos dos EUA no futuro”. Trump vende a ideia de que paga as contas de defesa europeias, uma meia-verdade, mas o seu gasto militar é incomparável: 39% da rubrica no mundo, ante 22% dos seus parceiros de Otan.

Johansson vê o país de Volodimir Zelenski como um futuro cliente militar —Estocolmo ensaiou diversas vezes enviar caças Gripen de sua frota para ajudar os ucranianos.

Ao mesmo tempo, evita celebrar negócios. “É claro que precisamos aumentar nossa posição no mercado. Mas a guerra é um erro, uma tragédia. Nós não estamos neste negócio para nos beneficiarmos dela. Estamos para manter as pessoas e a sociedade seguras”, diz.

A Suécia, que abandonou 200 anos de neutralidade para se unir à Otan em 2024 devido à percepção de ameaça de Putin, anunciou na semana passada que passará de um gasto com defesa de 2,6% para 3,5% do PIB até 2030.

“Isso é muito dinheiro no nosso contexto”, afirma. O plano da UE prevê fomento apenas de empresas europeias, mas o executivo diz que “o elo transatlântico precisa continuar forte”, apesar de admitir que isso é “pouco claro daqui para frente”.

Johansson argumenta que, apesar de “não podemos ter a dependência que temos hoje dos EUA”, mesmo os americanos precisam da Europa, e não só pelo seu mercado.

Ele cita o programa da Saab com a Boeing do T-7, o novo avião de treinamento de caça de Washington, uma bomba guiada de longa distância com a mesma parceira e o fornecimento de sensores para o país de Trump, além da abertura de uma fábrica em Michigan.

O executivo é peremptório ao dizer que não vê nenhuma ameaça concreta de Trump em relação a licenças de utilização de componentes americanos —cerca de um terço do Gripen é feito com partes “made in USA”, a começar por seu motor.

Durante a Guerra Fria, os suecos desenvolveram uma poderosa Força Aérea com tecnologia local, mas o fim do embate em 1991 levou ao esvaziamento do gasto militar por lá. A Saab passou a focar em exportação, apesar de ser fornecedora primária das forças de seu país, e buscou diversificar sua cadeia de suprimento.

Com a volta da demanda, há capacidade industrial para absorvê-la? Johansson diz que sim, “mas não podemos permitir isso cair novamente e desmantelar tudo”. Já em 2022 ele questionava a inação europeia ante sua própria defesa, e sua avaliação tornou-se presciente com Trump na Casa Branca.

Em termos de mercado, ele vê outras oportunidades, a começar por Portugal. Agastada com o presidente americano, Lisboa decidiu vetar o F-35 da concorrência para substituir sua frota de F-16 também americanos.



Source link

Adicionar aos favoritos o Link permanente.