2 de abril: Dia Mundial da Conscientização do Autismo

Cada vez mais, a sociedade discute o autismo, e nada mais justo do que dedicar um dia para lutar pelos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). No dia 2 de abril, é celebrado o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2007, para promover o entendimento sobre o transtorno, combater preconceitos, destacar as particularidades e necessidades desse grupo de pacientes e incentivar a inclusão.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas no mundo têm TEA. Esse transtorno do neurodesenvolvimento tem apresentado um crescimento significativo nos últimos anos, em parte devido ao maior incentivo ao diagnóstico.

Estima-se que cerca de uma a cada 36 crianças seja diagnosticada com autismo, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). No Brasil, aproximadamente 2 milhões de pessoas estão dentro do espectro autista, sendo o transtorno mais comum em pessoas do gênero masculino.

Por isso, durante todo o mês, conhecido como Abril Azul, campanhas ao redor do mundo reforçam a importância de dar voz às pessoas com autismo, destacando a necessidade de acesso a diagnósticos, tratamentos adequados e, acima de tudo, respeito e aceitação. O TEA é caracterizado por desafios na comunicação, interação social e padrões de comportamento repetitivos.

A médica otorrinolaringologista pediátrica Juliana Caixeta, explica que fatores como prematuridade extrema, idade parental avançada e exposição a agentes ambientais podem estar relacionados ao TEA. Segundo ela, o transtorno de linguagem é uma das características que ajudam na identificação precoce.

“Uma das características mais marcantes e precoces do autismo é o transtorno de linguagem, considerado um critério para o diagnóstico, uma vez que essa alteração compromete significativamente a comunicação social”, destaca.

As alterações de linguagem podem ser percebidas ainda no primeiro ano de vida. Algumas crianças choram pouco, não respondem ao nome ou têm contato visual reduzido. Entre 1 e 2 anos, a fala pode se desenvolver e, posteriormente, desaparecer. Outro indício é a comunicação feita por gestos, como pegar a mão do adulto para indicar algo.

A especialista destaca que o otorrinolaringologista é fundamental para descartar alterações auditivas que possam impactar o desenvolvimento da fala. “Toda criança com atraso de fala deve fazer acompanhamento fonoaudiológico, mesmo sem um diagnóstico fechado de TEA”, afirma.

Entre 2 e 3 anos, outras manifestações se tornam mais evidentes, como a ecolalia (repetição sem função comunicativa), dificuldade de compreender histórias e tom monótono ao falar. Algumas crianças apresentam hiperlexia, ou seja, aprendem a ler precocemente, mas sem outras habilidades cognitivas desenvolvidas.

Desafios das mães atípicas

Jessica Lorrayne, mãe de uma criança com autismo, relata as dificuldades enfrentadas até obter o diagnóstico. “Uma das maiores dificuldades foi entender o que estava acontecendo com minha filha. O primeiro sintoma que percebi foi a sensibilidade a barulhos altos, que a deixavam irritada. Além disso, ela andava sempre na ponta dos pés, o que era bem diferente”, conta.

Com o crescimento da filha, Jessyca notou a dificuldade na fala e a falta de interação com outras crianças. “Levei ao médico e ele mencionou a possibilidade de autismo. No início, eu não compreendia bem, mas com muita terapia e estudo, consegui entender e lutar pelos direitos dela”.

Atualmente, a criança tem 10 anos e uma qualidade de vida melhor. “Ser mãe atípica não é fácil. O mais difícil é enfrentar o julgamento da sociedade, que não entende e acha que é apenas birra”, desabafa.

O impacto emocional e psicológico das mães atípicas é significativo. Muitas enfrentam exaustão mental e emocional devido à carga de cuidados e à dificuldade de acesso a tratamentos adequados. Estudos apontam que mães de crianças autistas têm maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e estresse crônico. A necessidade de uma rede de apoio e de políticas públicas voltadas para essas mães é essencial.

Além disso, muitas dessas mulheres precisam abandonar suas carreiras para cuidar dos filhos, enfrentando dificuldades financeiras. O mercado de trabalho ainda não está preparado para flexibilizar jornadas ou oferecer suporte adequado para que essas mães consigam conciliar suas responsabilidades.

Leis e ações de apoio ao TEA e mães atípicas

Sancionada em 2020, a Lei 13.977, conhecida como Lei Romeo Mion, criou a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea), permitindo acesso prioritário a serviços. Já a Lei Berenice Piana (12.764/12) estabelece direitos como diagnóstico precoce, tratamento e acesso à educação.

Outras leis também garantem direitos, como a Lei 13.370/2016: Redução da jornada de trabalho para servidores públicos com filhos autistas; Lei 8.899/94: Gratuidade no transporte interestadual para autistas de baixa renda; Lei 8.742/93: Benefício de Prestação Continuada (BPC) para autistas de baixa renda; Lei 7.611/2011: Atendimento educacional especializado e a Lei 10.098/2000: Normas de acessibilidade.

No âmbito estadual, o governador Ronaldo Caiado sancionou a Política Estadual de Atenção e Proteção às Mães Atípicas, incluindo a Semana Estadual das Mães Atípicas, promovendo eventos e debates sobre seus desafios.

Além disso, iniciativas como a Casa do Autista são fundamentais. Prevista para Goiânia, a instituição oferecerá suporte especializado a autistas e suas famílias. O espaço contará com neuropediatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e assistentes sociais, garantindo um atendimento multidisciplinar.

A inclusão escolar e no mercado de trabalho ainda são desafios para as pessoas com TEA. Embora a Lei Brasileira de Inclusão (13.146/2015) garanta o direito à educação e trabalho, a realidade mostra que muitas instituições e empresas não estão preparadas para receber essas pessoas.

Nas escolas, a falta de profissionais capacitados dificulta a adaptação de crianças diagnosticadas com autismo. No mercado de trabalho, barreiras como falta de acessibilidade e desconhecimento sobre o TEA impedem que adultos autistas conquistem independência financeira.

A luta pela conscientização e implementação dessas políticas precisa continuar para garantir que crianças com autismo recebam diagnóstico precoce, tenham acesso a terapias e educação de qualidade e que suas famílias, especialmente mães atípicas, sejam amparadas pelo Estado e pela sociedade.

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