A democracia está em perigo; faz sentido lutar por ela? – 02/04/2025 – Latinoamérica21


Não há melhor maneira de atrair atenção do que fazer uma pergunta provocativa. A resposta pessoal é retumbante: sim. No entanto, como entender que no Panamá aqueles que justificam um golpe de Estado passaram de 11% para 38% em uma década? O Panamá é considerado um dos países mais democráticos da região.

Por outro lado, na Espanha, 37,6% dos jovens entre 18 e 24 anos concordam com a afirmação “Não me importaria de viver em um país não muito democrático se isso me garantir uma melhor qualidade de vida”. A média do país é de 26,8%.

A democracia, considerada no século passado “o único cassino da cidade”, está em perigo. Sua prática pode ser empurrada para um canto quando se trata de definir novas regras de poder e empoderamento. Quem está no comando e com que finalidade continuam sendo questões fundamentais, assim como a definição das relações entre indivíduos, suas garantias e solução de conflitos.

Por muito tempo, a democratização foi baseada apenas em eleições regulares, ignorando a fraqueza estrutural do Estado. As bases sociais e culturais também foram negligenciadas, o que é especialmente crítico na América Latina. Muitas democracias sofreram com a ausência do Estado, resultando em insegurança, abandono do espaço público e falha nas políticas públicas. Isso afasta os cidadãos da política, tornando a democracia a principal perdedora.

A captura do Estado por elites perpetua sua permanência no poder. Os mecanismos democráticos tornam-se dispensáveis e disfuncionais, enquanto novas formas de fazer política emergem em sociedades insatisfeitas e semi-informadas. A polarização e as redes sociais obscurecem a distinção entre verdade e conspiração, fragmentando a população em comunidades efêmeras e minando o espaço público.

Persistem desigualdade extrema e exclusão, enquanto valores culturais favorecem a intolerância e enfraquecem o capital social. Esse cenário subverte o funcionamento tradicional da democracia. A influência global do trumpismo incentiva o afastamento das massas da democracia.

A classe política contribui para isso com atitudes irresponsáveis, desde trocas agressivas de mensagens entre chefes de Estado até o uso de mecanismos não institucionais para confrontos políticos. Exemplo disso é a intervenção de Nayib Bukele na política mexicana e a convocação de Rodrigo Chaves para uma marcha contra o procurador-geral.

Diante desse contexto, a questão inicial faz sentido para amplos setores da sociedade. O binômio legitimidade-eficácia segue essencial, mas a revolução digital impacta essa base. A inteligência artificial permite conhecer as preferências cidadãs, algo que governos e consultorias políticas já exploram para análises e propostas.

As funções dos partidos estão obsoletas, agravadas pela perda de influência na seleção de líderes. Se a política se resumir à eleição de candidatos inexperientes para gerenciar decisões baseadas em algoritmos, não seria o caso de considerar o sorteio como método, como sugerido por Isaac Asimov em “Sufrágio Universal”?

A democracia também é um modo de vida ameaçado pelo poder das corporações tecnológicas aliadas à política e por massas digitalmente alienadas. A alfabetização digital demanda novas formas de expressão política, ainda desconhecidas. Somente uma atitude proativa e atenta pode evitar a perda de sentido desse sistema.


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