Principal crítico de vinho sul-americano impulsiona ‘suquinhos elétricos’ – 02/04/2025 – Comida


Enquanto o consumo de vinho branco aumenta globalmente, produtores da América do Sul se esmeram em criar tintos muito elegantes e cheios de frescor, que valorizam mais e mais seu terroir. Quem ama vinhos exatamente assim é o crítico chileno Patricio Tapia, nome mais quente do vinho sul-americano hoje.

É ele o autor do guia Descorchados, que reúne e julga neste ano 4.000 rótulos produzidos por 210 vinícolas em seis países: Argentina, Chile, Brasil, Uruguai, Bolívia e Peru. A publicação, um trabalho meticuloso e escrito com estilo, é embalada em três volumes e foi lançada nesta semana em São Paulo e no Rio de Janeiro, com feira de produtores e degustações guiadas.

No ano passado, Tapia concedeu pela primeira vez cem pontos para um vinho tinto. Neste ano, foram dois com a pontuação máxima. Os brancos ainda não chegaram lá, no máximo atingiram 98 pontos. Perguntei ao crítico o porquê e ele, sem titubear, respondeu aos risos: “O problema é que não sou muito de brancos.”

Essa resposta sincera, como lhe é comum (há dois anos, disse que era muito difícil julgar os vinhos brasileiros porque “eram muito ruins”), me levou a questionamentos: é ok um crítico ter um paladar tão demarcado e declará-lo assim tão descaradamente? Por outro lado, se o crítico é apenas um ser humano, como pode julgar sem levar em conta sua paixão? E, se não consegue livrar-se dela, como será justo?

Tapia complica ainda mais a reflexão quando diz que seu trabalho não é objetivo. “Não acredito na objetividade do vinho. Acho que é uma experiência pessoal.” Mas diz que tem uma relação de confiança e que indica vinhos também que não são do seu estilo se os julga bem feitos.

Até os primeiros anos deste século, o mundo viveu sob a égide de um “imperador”, título da biografia de Robert Parker. O crítico norte-americano, aposentado em 2019 aos 71 anos, era apaixonado por tintos mais potentes, com longa passagem por madeira que lhe conferiam corpo e taninos de alto poder adstringente.

Esse gosto foi como um farol para produtores nos quatro cantos do mundo durante décadas, ditando até o que se devia plantar e quando se devia colher —tardiamente, para que as frutas já bem maduras contassem com bastante açúcar que seriam convertidos em altas gradações alcoólicas na fermentação.

Na feira Descorchados, difícil foi provar tintos assim. A maior parte dos rótulos com melhor pontuação, não importa se fossem feitos com castas consideradas mais rústicas, tânicas ou alcoólicas, eram como suquinhos elétricos. Estaríamos vivendo uma parkerização ao contrário? Chegou a vez da patricio-tapização?

Talvez. É preciso ficar atento para ver como se molda a produção desta parte do mundo. É verdade que o aquecimento global bem como as preocupações com a saúde fazem com que os produtores colham mais cedo e assim controlem mais os níveis alcoólicos —diferentemente do que queria Parker.

Mas vemos o que Tapia valoriza ser valorizado pelos produtores também: o senso de lugar mais do que as variedades de uvas, o frescor acima de qualquer outra característica, e projetos que sejam mais fora da caixa do que típicos, com vinhos que trazem notas tão diferentes quanto salinas ou de bacon. Resta saber quem veio antes: o ovo ou a galinha.



Source link

Adicionar aos favoritos o Link permanente.