O SUS resiste, mas até quando?

A saúde pública no Brasil foi conquistada após várias lutas sociais, consolidando-se como um direito fundamental garantido pela Constituição de 1988. No entanto, as fragilidades estruturais e a instabilidade política frequentemente colocam essa conquista em risco. O modelo de atenção integral, representado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), enfrenta desafios que vão desde o subfinanciamento até tentativas de privatização, comprometendo a universalização do acesso aos serviços de saúde.

Marcelo Henrique Silva, médico com foco em grupos vulneráveis, destaca que o conceito de saúde nem sempre foi visto sob a perspectiva do bem-estar coletivo. “Durante gerações, ser saudável significava apenas não estar doente. Essa visão reducionista beneficiava apenas o setor produtivo, garantindo que os trabalhadores seguissem ativos”, afirma. As primeiras políticas sanitárias eram excludentes, restringindo o acesso às condições básicas de saúde apenas aos empregados formais, enquanto a maioria da população permanecia desassistida.

A ampliação desse conceito, reconhecida formalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1946, permitiu avanços importantes, mas também exigiu maiores investimentos e compromissos governamentais. No Brasil, a saúde passou a ser reconhecida como um direito de todos e um dever do Estado, mas a efetivação dessa política está longe de ser plena. “O direito foi garantido na legislação, mas sua execução depende de vontade política e recursos que, muitas vezes, são cortados ou mal administrados”, critica Silva.

A desvalorização dos profissionais da saúde, o envelhecimento populacional e os ataques ao SUS por meio da privatização são alguns dos desafios estruturais enfrentados pelo setor. A interferência política também tem impacto direto. “Vemos, por exemplo, decisões como a de Donald Trump ao cortar ajuda humanitária, agravando o combate à pandemia de HIV/AIDS. Isso mostra como a saúde é refém de interesses políticos e econômicos”, ressalta Silva.

A falta de investimentos e o sucateamento das instituições médicas públicas resultam em filas intermináveis, falta de medicamentos e precariedade no atendimento. Enquanto isso, o setor privado cresce, beneficiando-se das falhas do sistema público e aumentando a desigualdade no acesso à saúde. “O risco é transformarmos a saúde novamente em uma mercadoria, em vez de um direito garantido”, alerta o médico.

Diante desse cenário, a sociedade precisa manter a vigilância sobre a gestão pública e cobrar maior compromisso dos governantes. Sem financiamento adequado e uma gestão eficiente, a saúde como direito pode se tornar apenas um ideal distante. “Não basta termos a saúde garantida na Constituição. Precisamos de políticas eficazes para que esse direito não seja constantemente ameaçado”, conclui Silva.

 

 

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