Parque do Itatiaia (RJ) tem pinturas rupestres reveladas – 05/04/2025 – Ciência


Uma gruta localizada a 2.350 m de altitude no Parque Nacional do Itatiaia, próximo ao município de Resende, revelou as primeiras pinturas rupestres do estado do Rio de Janeiro.

Os desenhos, em colorações que variam do vermelho ao amarelo-alaranjado, são principalmente geométricos, como círculos e traços, ou ainda zoomórficos, com formas que se assemelham a um lagarto. Eles foram descobertos no final de 2023 por Andres Conquista, funcionário da Parquetur, concessionária que administra o parque.

Após a identificação das pinturas, a área do sítio foi isolada para estudo científico. Por essa razão, foi feita uma comunicação ao ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente responsável pela criação de parques e unidades de conservação no país, e ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) do RJ para o registro e proteção do sítio.

Batizado de sítio Arqueológico Agulhas Negras, o achado pode abrir caminho para a descoberta de outros sítios arqueológicos na região. Em abril do último ano, foram realizadas as primeiras visitas de pesquisadores do ICMBio, Iphan, Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e do Museu Nacional, ligado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), para a análise das pinturas.

“É possível que surjam outras informações, mas, por enquanto, o sítio está isolado. E, se estiver isolado, isso é bastante interessante também”, disse Maria Dulce Gaspar, uma das envolvidas na pesquisa e professora do programa de pós-graduação em arqueologia do Museu Nacional.

Sua localização no planalto de Itatiaia pode indicar que diferentes paisagens foram habitadas por povos antigos. “Essa identificação do sítio arqueológico também mexe em algumas noções no que se refere à distribuição espacial das pinturas rupestres, pois antes se imaginava que elas estavam restritas aos estados vizinhos, especialmente Minas Gerais”, explicou Gaspar.

Segundo Felipe Mendonça, diretor do parque e gestor ambiental do ICMBio, os registros estão em uma pequena formação rochosa. O órgão fechou temporariamente a visitação ao local no sítio para permitir a realização das pesquisas científicas e, também, preservar o achado.

O diretor disse que o ICMBio dispõe de estruturas de alojamento para pesquisadores que estão interessados no avanço científico das análises para melhor conhecer o patrimônio arqueológico do parque.

A partir de estudos será possível avaliar a idade das pinturas, o que só pode ser feito por meio do uso de ferramentas de datação do material associado –como rochas ou outros elementos encontrados associados ao sítio.

De acordo com o órgão, os desenhos do Itatiaia têm semelhança com a Tradição São Francisco, assim nomeada por ser relacionada às pinturas localizadas na bacia do rio São Francisco, entre os estados de Minas Gerais e Bahia. O sítio também pode ter relação com outros da região, como os localizados em Andrelândia, Baependi e Carrancas, no sul mineiro.

No entanto, Edithe Pereira, arqueóloga e pesquisadora emérita do Museu Paraense Emilio Goeldi, em Belém (PA), que não está envolvida no estudo, acha que ainda é muito cedo para fazer alguma inferência nesse sentido. “Acabou de ser encontrado. Acho prematuro dizer isso, é preciso intensificar a pesquisa, com arqueólogos especialistas em arte rupestre para fazer um trabalho sistemático, ver se tem outros sítios, se há sedimento nesses abrigos para fazer uma escavação, tentar relacionar as camadas.”

Recentemente, novos sítios com arte rupestre têm sido revelados no Brasil. Tal conhecimento pode ajudar a desvendar a história dos primeiros povos que ocuparam o território e como eram seus hábitos e modos de vida. No caso do sítio de Itatiaia, ele pode alavancar estudos para entender como se deu o processo de ocupação na região Sudeste.

“Já existe uma frente de pesquisa que está bastante adiantada do Diego Emmerich, da Uerj, um dos nossos associados, que está juntando as informações dispersas sobre a presença de povos caçadores-coletores no Vale do Paraíba do Sul, do lado do estado do RJ, que seriam os mais antigos a ocuparem o Brasil. Muito provavelmente essas linhas de pesquisa se conversam, porque tradicionalmente nós sabemos que quem fazia essas pinturas eram caçadores”, disse Gaspar, pesquisadora do Museu Nacional.

Pereira lembra que o fato de o novo sítio ser encontrado em uma área de parque, onde já existia uma proteção integral, é uma vantagem. “[É necessário] agora pesquisa em determinadas áreas no entorno, porque os povos que pintaram aqueles desenhos certamente moraram ali, ou estavam de passagem e moraram em outro lugar. Então, se existe um sítio, vão ser encontrados outros.”

Para Gaspar, o mais importante é garantir a conservação do sítio e trabalhar o seu potencial para conscientização da população visando educação cultural e histórica. “Quem protege é quem está próximo, por isso é fundamental a preservação desse testemunho, que é ímpar para a arqueologia brasileira.”



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