Mulheres empreendem em setores dominados por homens – 26/03/2025 – Mpme


Cada vez mais mulheres empreendem em áreas dominadas por homens, como mecânica, construção civil e manutenção residencial. Os negócios, que buscam oferecer ambientes seguros e acolhedores para outras mulheres, costumam ser bem aceitos entre o público feminino, mas preconceito ainda é obstáculo.

“A mulher tende a representar menos risco, principalmente físico, para outra, o que torna esse mercado promissor”, explica Ana Flavia Silva, gestora do Sebrae Delas, programa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de incentivo ao empreendedorismo feminino.

Além da segurança, a presença feminina muda a experiência do consumidor. Os espaços se tornam mais organizados e receptivos, e a comunicação passa a ser mais acessível. “Quando as mulheres ocupam esses espaços, elas criam soluções mais alinhadas às necessidades do público feminino”, afirma Silva.

No setor de reparação automotiva, dados do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) mostram que a participação feminina tem crescido nos últimos anos: entre 2010 e 2019, o número de mulheres formadas em cursos de mecânica aumentou 67%.

Apesar do avanço, Sandra Nalli, 45, fundadora da Escola do Mecânico, observa que muitas oficinas ainda resistem à contratação de mulheres. “Existe um avanço, mas essa mudança ainda não é realidade em 100% das oficinas”, afirma.

A Escola do Mecânico começou como um projeto social em Campinas, no interior de São Paulo, onde os alunos eram adolescentes da Fundação Casa. A demanda por cursos pagos surgiu pouco tempo depois. Foi quando ela abriu a empresa, em 2011.

Demorou três anos para que a primeira mulher se matriculasse. Uma década depois, elas representam 10% dos 14 mil alunos matriculados. “O número ainda é baixo, mas é muito significativo”, afirma.

Em 2024, a empresa faturou R$ 70 milhões, com previsão de crescer 25% neste ano. Das quase 50 unidades da escola, 52% são geridas por mulheres. Para Nalli, que é mecânica desde os 22 anos, alguns fatores explicam o aumento do interesse das mulheres na área.

Além do exemplo de outras mulheres, há uma mudança geracional: as oficinas, antes geridas por mecânicos mais velhos, agora estão nas mãos de sucessores com mentalidade mais aberta. Outra causa é a escassez de mão de obra no setor.

“A mecânica está entre as dez profissões mais difíceis de serem preenchidas hoje. Isso abriu espaço para que empresários dessem mais oportunidades para mulheres. Eles percebem que a mulher é mais cuidadosa e detalhista. Hoje, recebo pedidos de oficinas dizendo que priorizam contratar mulheres. Isso nunca aconteceu antes”, conta.

Silva, do Sebrae, acredita que o primeiro passo é romper com o machismo estrutural. “A mulher precisa enxergar que há espaço para ela nesse mercado. O ambiente de trabalho pode ser hostil, mas ao superar as primeiras barreiras, ela se fortalece no propósito e enfrenta tudo.”

Bianca Melo, 37, de São Paulo, capital, trabalha com reparos residenciais e afirma que nunca enfrentou grandes dificuldades com os clientes —a maioria mulheres. Os desafios vieram de fora desse círculo.

“Comprar material, por exemplo, nem sempre é fácil. Como a maioria das lojas é gerida por homens, às vezes você pede uma coisa e eles trazem outra, achando que sabem melhor o que você precisa”, diz. “Já aconteceu de eu comprar uma marreta e o vendedor quase pedir meu CPF antes de me entregar. No final, ainda perguntou: ‘Tem certeza que não é de um martelo que você precisa?’”

Melo trabalha sozinha e oferece serviços como montagem de móveis e instalação de prateleiras e quadros. Para serviços mais complexos, como móveis fixados na parede, conta com uma rede de apoio formada por mulheres autônomas que também atuam na área.

Ela atende entre 15 e 20 clientes por mês, com faturamento mensal de R$ 5.000 a R$ 6.000. Em meses com serviços maiores, como pintura, o valor pode ultrapassar R$ 10 mil. Antes de se dedicar aos reparos residenciais, trabalhava com projetos no ramo da construção civil.

Cecília Bona, 45, criou a Dona Conserta, empresa de manutenção residencial para mulheres em Brasília, após uma experiência desconfortável ao contratar técnicos para consertar sua geladeira. Sozinha com o filho pequeno, enfrentou perguntas e olhares invasivos.

Ela, que era professora universitária e trabalhava com montagem de exposições em museus, decidiu aprender a fazer o reparo por conta própria e da experiência surgiu a ideia de um serviço seguro e acolhedor para mulheres.

Hoje, a Dona Conserta conta com uma equipe de sete mulheres, que atuam na administração e na execução dos serviços. Em 2024, realizou mais de mil atendimentos e faturou R$ 450 mil.

Para a gestora do Sebrae, esse setores são oportunidades rentáveis para mulheres porque ainda há demandas não atendidas, especialmente do público feminino. A entrada delas nesses mercados pode suprir essas lacunas, além de impulsionar a economia, já que permite que mais mulheres conquistem autonomia financeira.

“Além de transformar o próprio entorno, essas mulheres empregam e criam oportunidades para outras. Esse movimento não apenas amplia a presença feminina no mercado, mas tem reflexos positivos no crescimento econômico do país”, diz.



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