Como ser mãe quando você quer a sua mãe? – 03/04/2025 – Tati Bernardi


O primeiro sintoma foi uma enxaqueca que não cessava com nenhum medicamento. Tive que acordar minha filha no meio da noite, colocá-la semidormindo na cadeirinha do carro, dirigir até uma farmácia, comprar uma injeção com um pedido médico quase vencido, aplicar sozinha na minha barriga e, de volta à minha casa, subir com a menina de 23 quilos no meu colo, o pezinho cutucando exatamente o lugar em que eu havia aplicado a injeção.

Durante todo o fim de semana em que não pude pisar no chão porque a dor de cabeça irradiava para os dentes, eu só pensava na minha mãe. Pensava na palavra mãe, mãe, mãe, obsessivamente; eu queria muito a minha mãe. Queria ir lá perturbar a minha mãe. Dormir com ela. Chorar, desmoronar no chão em posição fetal, pedir que ela fizesse uma sopa (que eu tomaria só um pouco, porque tô enjoada. Saudade de poder ficar enjoada e pedir ajuda para a minha mãe. Nem para enjoo eu tenho mais tempo).

Mas o desejo de correr para a casa da minha mãe era entrecortado o tempo todo pela voz fininha da Rita me pedindo para colocar bem alto a música “Popular”, da Ariana Grande, no som do carro. De novo, mamãe. Agora mais alto. Mais alto. De novo.

O segundo sintoma da gripe foi uma dor bizarra na lombar. Achei que estivesse com infecção urinária e implorei para que a minha ginecologista me enviasse, durante as férias dela, uma receita de antibiótico. Cheguei a comprar o remédio, mas a dor na lombar virou dor no corpo inteiro. Doía a pele das pernas, a nuca, o couro cabeludo. Então tive certeza de que era dengue.

E por que fiquei achando coisas em vez de ir logo ao pronto-socorro para ter certezas? Rita precisava de ajuda com a lição, com a gengiva sangrando (porque tinha caído mais um dentinho), com o bracinho infeccionado (porque três picadas de mosquito se uniram em uma única perebona que ela coçou e fez virar um machucado gigante).

Por fim, chegaram a febre e a amigdalite, e aí eu fiquei feliz. Comemorar pus na garganta é algo estranhíssimo, mas depois que três amigos ficaram na UTI por causa de dengue, era um alívio.

Entre a incerta infecção urinária, a falsa dengue e a garganta purulenta, eu quis minha mãe umas 642 vezes, mas minha filha tinha dentista, carência, natação, terapia, medo, teatro, reforço de matemática, farpinha no pé esquerdo, festa da Juju, uns dez engasgos por dia porque insiste em comer aveia pura, a obrigação de levar uma roupa toda verde ou toda azul, sem nenhum detalhe, para a sua apresentação na semana da literatura e, por fim, como era de se esperar: uma gripe igual a minha.

Ontem, de pé, na cozinha, eu tentava lembrar o que mesmo tinha ido fazer lá. Com quase 39 graus de febre, uma dor na garganta que me fazia lacrimejar a cada engolida de saliva, o corpo inflamado, eu dava minis saltinhos de tantos calafrios. A enxaqueca havia voltado. Eu queria o que mesmo naquela cozinha? Eu queria a minha mãe. Queria abrir o móvel das canecas e ser transportada para a cama quentinha dela. Eu espichei, alonguei, estiquei. Eu engordei, enruguei, encolhi. Mas sou a mesma criança doente. Eu pensava: “Cadê a minha mamãe?”. Então escutei “Maaaanhêêêê” e lembrei. Eu fui fazer um suco de laranja. O leite morno com chocolate a Rita tinha vomitado porque quando tem febre só consegue tomar sucos fresquinhos. Eu era igual.


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