IA: nosso medo de perder o controle – 29/03/2025 – Nicolás José Isola


Algumas semanas atrás, uma amiga me contou que a filha dela, de 10 anos, depois de assistir a um vídeo sobre inteligência artificial, perguntou: “Mãe, os robôs vão mandar na gente?”. Elas riram, mas a pergunta ficou no ar. Não porque a IA vá nos dominar amanhã, mas porque até as crianças já sentem esse clima de incerteza que nos envolve.

O tsunami da inteligência artificial gera fascínio, mas também muitos medos. Cada avanço é celebrado e comentado com uma certa épica de ruptura. E isso acontece toda semana.

Esse é um dos efeitos mais potentes — e menos discutidos — dessa tecnologia: sua capacidade de despertar emoções antes mesmo dos fatos. Medo, ansiedade, incerteza. Será que vamos perder nossos empregos? Será que ela vai decidir por nós? Será que vai saber mais do que a gente? A sensação de que algo muito grande está se movendo e não temos o mapa para entender. É o que se convencionou chamar de FOMO, Fear of Missing Out, o medo de ficar de fora de uma conversa, de uma novidade ou de um avanço tecnológico.

Mas não temos medo da IA em si. Temos medo de não entender como ela funciona e quais são seus limites. Medo de que avance sem freio, de que alguém a controle e a use contra nós. Medo de que, nesse turbilhão, se perca algo essencial: o humano. Vimos muitos filmes em que os robôs saem do controle. Nunca estivemos tão perto de que essa história vire realidade.

Precisamos falar de inteligência artificial sem cair nem no entusiasmo cego, nem no pânico apocalíptico. Porque não é mágica, nem monstro: é tecnologia. É uma ferramenta poderosa, sim. Mas moldável. E como toda ferramenta poderosa, o que importa não é apenas o que ela pode fazer, mas para que escolhemos usá-la.

Como acontece com a energia nuclear, o medo não é da IA em si, mas de seu mau uso. E esse mau uso já existe. Já há pais dizendo a seus filhos de 7 ou 8 anos para usarem IA para resolver questões que são justamente importantes para que as crianças desenvolvam sua inteligência real. Podemos acabar usando a IA para deixar de pensar em momentos em que pensar é absolutamente crucial para o desenvolvimento humano.

Vivemos na era da ansiedade, e a IA pode acelerar ainda mais essa pressa furiosa de resolver tudo rápido, inclusive assuntos que exigem maturação e reconhecimento gradual, simplesmente porque somos humanos. Há tempos que dificilmente podem ser encurtados, como o da gestação de um bebê.

Existe um ritmo vital que continuará existindo e continuará sendo nosso. E precisamos escutá-lo.

Talvez o verdadeiro desafio não seja como treinar a IA, mas como desenvolver nossa inteligência real para conviver e cocriar com ela. Ter conversas mais informadas, fazer perguntas incômodas, exigir transparência. Não para frear os avanços (que são imparáveis), mas para não ficarmos de fora de nós mesmos.

Quando a gente entende, o medo diminui. E com menos medo, tomamos decisões melhores.


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